segunda-feira, outubro 27, 2008

Ciência & Metafísica

Sempre que se trilha um caminho rumo aos rigores da ciência, parece que há um contra-ponto quase que inevitável: tudo o que não é científico deve ser relegado ao plano da metafísica, o que, em geral, é visto pelo rigor acadêmico como pura crença pessoal desprovida de qualquer fundamento plausível racional.

Mas como adoro exceções, venho compartilhar o que escutei de um homem das ciências exatas, engenheiro formado pelo ITA, profissional atuante e professor, que mesmo aposentado ainda ajuda na correção de teses de alunos, e que mesmo antes de eu nascer andava às voltas com a prima da minha mãe, com quem se casou e constituiu família: aqueles seis irmãos, dentre os quais o mais velho era o seu avô e o mais novo meu sogro, que foi pintor, gravurista e seminarista na juventude, desenvolveram uma consciência espiritual que poucos alcançam nesta vida. Relatou acontecimentos como a filha que ardia em 39 graus de febre, mas que após ter sido visitada pelo avô e dele ter recebido imposição de mãos, teve a temperatura rapidamente reestabelecida em 36,5 graus.

O meu avô, lembro-me bem, era regularmente visitado por pessoas em busca de coisas perdidas... certavez foi visitado por policiais, que quiseram saber como é que ele tinha achado a localização de um carro roubado. "Responso", que era como ele chamava as consultas que fazia com o pêndulo, foi a resposta aos incrédulos policiais.

A caridade, disse-me o homem das ciências exatas, é um dos caminhos mais certeiros para se chegar à espiritualidade superior e aqueles seis irmãos a tinham em abudância, eram capazes de tirar a roupa do corpo para ajudar a quem precisasse.

Esse pequeno relato foi extraído de uma conversa proporcionada por uma comemoração de Bodas de Ouro, aqueles cinquenta anos de convivência conjugal que hoje se encontra em vias de extinção, em tempos onde companheirismo, amizade e carinho parecem algo que a cada dia anda menos em sintonia com o que se costuma chamar de atração entre sexos opostos.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Assédio Moral

Assédio Moral: em 2008, 369 trabalhadores já foram à Superintendência Regional do Trabalho, em Curitiba, alegando terem sido vítimas dessa prática.

"De acordo com o professor Raphael Di Lascio, da Universidade Tuiuti, os casos mais comuns de assédio moral são: ser alvo de fofoca ou intriga, deixar de receber informações pertinentes ao trabalho, ser isolado do grupo, receber metas impossíveis e ter a competência questionada.
O desembargador federal do trabalho Dirceu Buyz Pinto Júnior esclarece que o assédio moral geralmente acontece por duas diferentes razões: para conseguir um aumento de produtividade ou para forçar a demissão".

Excertos de matéria publicada no jornal Gazeda do Povo, de 24.10.2008.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Difamação Virtual, Indenização Real.

"O Superior Tribunal de Justiça manteve a indenização contra homem que difamou ex-namorada por e-mail".

"Um homem que divulgou mensagens eletrônicas difamando uma ex-namorada, referindo-se a ela como “garota de programa”, não terá o recurso especial julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com isso, fica mantido o acórdão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), que o condenou a pagar uma indenização por danos morais no valor R$ 30 mil, mais juros. A decisão é do juiz convocado Carlos Fernando Mathias.

A mulher alegou que recebeu diversas ligações telefônicas com o objetivo de contratá-la para a prática de programas sexuais. Ela declarou que o fato ocorreu em virtude da publicação de e-mails divulgando seu nome, profissão, telefone e faculdade, junto com a fotografia de uma mulher em posições eróticas. Diante da situação, passou a ser incomodada pelos telefonemas e boatos que a taxavam de “garota de programa”. Ela, inclusive, teve de se retirar do clube ao qual era associada.

Em uma ação cautelar de exibição de documentos movida contra o provedor da mensagem, a mulher obteve a informação de que o correio eletrônico pelo qual foram enviados os e-mails pertencia ao ex-namorado dela e que a assinatura do provimento da internet pertencia ao irmão deste. A partir daí, requereu a condenação de ambos ao pagamento de indenização pelos danos morais sofridos.

Em primeira instância, a sentença condenou os irmãos ao pagamento de indenização no valor de R$ 17 mil. Na apelação proposta perante o TJRS, a ação referente ao ex-cunhado foi extinta por ilegitimidade passiva, sob o entendimento de que ele foi apenas o contratante do serviço utilizado e não o remetente. E manteve o julgamento com relação ao autor do e-mail e elevou o valor dos danos morais para R$ 30 mil. A defesa pretendia levar a discussão ao STJ por meio de um recurso especial, pretensão indeferida pelo tribunal gaúcho.

Mas o agravo de instrumento foi rejeitado pelo relator, juiz convocado Carlos Mathias. Para ele, não foram atendidas exigências processuais para este fim. Além disso, para apreciar a questão seria necessário analisar o conjunto de provas e fatos, o que é proibido ao STJ fazer em razão da sua Súmula 7".


A notícia refere-se ao julgamento do Ag 848362/RS.

http://www.stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=89658

terça-feira, outubro 21, 2008

Claras, Franciscas e Marias



A Paraíba e a sua capital João Pessoa surpreendem. E para melhor, o que faz toda a diferença, bom que se frise. Foi por lá, na capital, que me deparei com o Mosteiro de São Francisco, um lugar que vibra em certa aura que nos remete para algum lugar mais além, talvez para o passado que construiu aquele presente. Ao percorrer os corredores dos andares superiores, que abrigavam os claustros da ordem dos religiosos, hoje ligeiramente modificados e ampliados, pode-se vislumbrar que não obstante o rigor do fechar-se para o mundo, os arredores são indicadores de uma escolha privilegiada, onde a natureza abundante até hoje impressiona. O aroma que rescende, quando o vento adentra por algumas janelas, dá a conhecer que jasmins habitam o jardim que se deixa entrever pelos vãos inundados de sol, se não sempre, intensamente em dias de inverno típico, deveras ameno pelas redondezas das zonas tropicais equatorianas.

Há um confronto entre a ideologia do claustro, que se fecha para o mundo externo em busca da divindade por vias de interiorização, e a beleza que adentra do mundo afora, que espreita por todos os espaços: janelas, portas e arcadas que circurdam o pátio central, local onde eram praticadas orações, cânticos e meditações.

A Ordem dos Franciscanos teve o seu contra-ponto feminino através de Santa Clara, que fundou a Ordem das Irmãs Clarissas. Conta a lenda católica que dos olhos de São Francisco, ao cortar os cabelos da jovem Clara de Assis, escorreram lágrimas, tamanha era a beleza daquela que se tornaria conhecida na posteridade como Santa Clara.

Para alguns, entretanto, o movimento ascético, que encontrava ressonância no discurso dominante católico, era embuído, em alguns casos, de um sentido oculto, que encobria a rebeldia das jovens da época a certas regras vigentes, o casamento arranjado, por exemplo.
Dentre as inúmeras santas católicas que se destacaram por suas intensas penitências, encontram-se as Santas Wilgefortis, Catarina de Siena e Maria Madalena de Pazzi.

Leituras atuais de comportamentos idos podem sugerir que muitas práticas de jejum extenuante, valorizadas e enaltecidas por uma certa ótica, como a vigente na Idade Média, podem corresponder ao que se entende, atualmente, por quadros de anorexia crônica. A "Santa Inquisição", como hoje se sabe deveras pecadora de outrora, não deixou de notar o fato e se não deu às suas observações a interpretação conferida por Freud, buscou a que lhe era habitual: enquadrar o indomável, o desconhecido e o saber contrário aos ideais professados pela ordem vigente ou como manifestação divina ou como de natureza demoníaca, o que abria um leque para a toda a sorte de maneiras de eliminar o que estava a incomodar a ordem estabelecida, onde a rejeição tanto da beleza como do enaltecimento do ego estavam dentre os ideais que se encontravam no topo da escala de valores, compondo o caleidoscópio que dava a visão de mundo de então.

Arriscaria a propor, o que é endossado nos textos referidos ao final, que menos se altera a estrutura central de certos comportamentos humanos e muito se modificam as formas de se interpretar e entender esse mesmo que se repete. Parece-me que há inevitáveis aproximações de descrições de tais efeitos, quanto à vivacidade que se instala a partir de um estágio já avançado da anorexia nervosa, com o estado de êxtase que seguidores da ideologia "Vivendo de Luz" descrevem em seus relatos. A diferença é que a proponente da prática não encara uma dieta de pouquíssima ingestão não só de alimentos como de líquidos como algo patológico ou de caráter punitivo, mas caminho de iluminação: "Quando fui orientada pela primeira vez a contar minha viagem pessoal de libertação da necessidade de consumir alimentos graças ao poder Divino, não tinha idéia de que o livro se tornaria tão popular e seria publicado em tantas línguas" (Prefácio por Jasmuheen, autora de "Os embaixadores da Luz").

Cumpre-me dizer, por fim, que tais reflexões e aproximações não têm a pretensão de macular a santidade conferida a tantas mulheres que se dedicaram de corpo e alma ao ofício divino aqui na terra, principalmente porque, até hoje, desconheço alguma explicação científica para justificar fatos como, por exemplo, a incorrupção de corpos, como no caso de Santa Maria Madalena de Pazzi. E frente ao desconhecido, o mínimo que se requer é prudência e respeito. Se alguém souber dar razão ao milagre, cartas à redatora.

Veja mais em:
www.gatda.psc.br/anorexia.htm - 79k -
www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-44462002000300011&script=sci_arttext - 23k
www.redeceppan.com.br/artigos/08.07.15/08.07.15.htm - 30k -
es.wikipedia.org/wiki/Wilgefortis - 39k -



"Em 1212, a jovem Clara de Assis seguiu o atraente exemplo de Francisco e viveu, dentro da clausura e na contemplação, o ideal de pobreza evangélica. Surgiu, assim, a Ordem das Clarissas, ou a Segunda Ordem Franciscana.
Santa Clara nasceu em Assis, Itália, por volta de 1194, numa família rica e nobre. Seus pais chamavam-se Favarone e Hortolana, sendo Clara a filha primogênita. Com Inês e Beatriz, suas irmãs menores, que mais tarde também entrariam no Mosteiro de São Damião, Clara esforçava-se no amor a Jesus e sentia em seu coração o chamado para segui-lo.

Clara sonhava com uma vida mais cheia de sentido, que lhe trouxesse uma verdadeira felicidade e realização. O estilo de vida dos frades a atraía cada vez mais.
Depois de muitas conversas com Francisco, aos 18 de março de 1212, (Domingo de Ramos), saiu de casa sorrateiramente em plena noite, acompanhada apenas de sua prima Pacífica e de outra fiel amiga, e foi procurar Francisco na Igrejinha de Santa Maria dos Anjos, onde ele e seus companheiros já a aguardavam.
Frente ao altar, Francisco cortou-lhe os longos e dourados cabelos, cobrindo-lhe a cabeça com um véu, sinal de que a donzela Clara fizera a sua consagração como Esposa de Cristo. Nem a ira dos seus parentes, nem as lágrimas de seus pais conseguiram fazê-la retroceder em seu propósito. Poucos dias depois, sua irmã, Inês, veio lhe fazer companhia, imbuída do mesmo ideal. Alguns anos após, sua mãe, Ortulana, juntamente com sua terceira filha Beatriz, seguiu Clara, indo morar com ela no conventinho de São Damião, que foi a primeira moradia das seguidoras de São Francisco.
Com o correr dos anos, rainhas e princesas, juntamente com humildes camponesas, ingressaram naquele convento para viver, à luz do Evangelho, a fascinante aventura das Damas Pobres, seguidoras de São Francisco, muitas das quais se tornaram grandes exemplos de santidade para toda a Igreja.
As Irmãs Clarissas vivem um estilo de vida contemplativa, sendo enclausuradas. Quer dizer que não têm, normalmente, uma atividade pública no meio do povo, dedicando-se mais à oração, à meditação e aos trabalhos internos dos mosteiros".

www.franciscanos.org.br/nossaorigem/especiais/santa_clara2003/notas/santaclara.htm

O "Conjunto São Francisco", em João Pessoa, é um dos mais relevantes complexos de arquitetura e arte barroca no país. Concluída em 1770, a Igreja de São Francisco abriga, também, o Claustro da Igreja de São Francisco".

sábado, outubro 18, 2008

Roji




Nunca te esqueças
que o caminho do chá
não é nada mais que isto:
aquecer a água,
preparar o chá e bebê-lo.

Cha-no-yu to wa
Tada yu wo wakashi
Cha wo tatete
Nomu bakari nari
Moto wo shirubeshi


Segundo a antiga mitologia chinesa, em um lugar afastado, ao leste da costa chinesa, existem cinco ilhas onde os homens alcançaram a imortalidade e convivem em eterna harmonia. Ali reina a harmonia entre o homem e a mulher e também entre o ser humano e a natureza. Os imortais voam ao redor dos picos das montanhas, montados em grous. As ilhas se assentam sobre a carapaça de uma gigantesca tartaruga aquática que, ao lutar com um monstro marinho, perdeu duas das cinco ilhas. Essa história é conhecida como "O mito da ilha dos bem-aventurados", a qual cativou o Japão, que a adotou, mas reduziu as cinco ilhas a uma apenas, chamada P'eng-Iai ou Horaij-zan, em japonês. Um monte Horai, uma ilha Horai ou bem uma pedra Horai... as vezes aparece uma ilha de quatro grous ou das tartarugas como símbolo da Ilha dos bem-aventurados na jardinagem japonesa. Os grous e as tartarugas, em certa medida 'pars pro toto', se converteram em símbolos autônomos da longevidade.

Chá: elixir dos imortais e bebida que fomenta a vida em comum. A cerimônia do chá, 'sado o chado' em japonês, é uma criação puramente japonesa, ainda que tantas coisa no Japão tenham sua origem na China. A prática de tomar chá era conhecida de longa data no sul da China como um ato social e parte de um ritual estético-religioso, o qual era apreciado pelos chineses desde a época da dinastia Han (206a.C-220d.C), sobre tudo pelo seu poder curativo não só para o corpo, como para a alma, sendo-lhe atribuído poderes mágicos. A partir do século VII foi introduzido nos monastérios budistas como parte de um ritual religioso e que era utilizado na meditação por seu efeito excitante. Na opinião de Theodore Ludwing, o mais importante foi a associação do chá com poderes mágicos e com os imortais, da mitologia taoísta, e uma sensibilidade para a auto-disciplina e simplicidade naturais que se associaram aos efeitos adstringentes do chá verde. Durante a era Muromachi foram desenvolvidos todos os tipos de ritos e festas em torno do chá que até então haviam sido esquecidos há tempos. Festas passaram a ser organizadas, onde não eram apenas degustados diferentes tipos de chás, mas também bebidas alcoólicas, enquanto os convidados podiam entreter-se em conversas e jogos de amores, havendo também casas de banhos presentes. Com o passar dos séculos, elaborou-se no Japão um detalhado ritual ascético para preparar-se a cerimônia do chá, tornando-se um costume dos ricos comerciantes do começo do século XVI construírem pequenas cabanas no jardim de suas casas para darem lugar à cerimônia, cujo acesso se dá pelo roji, o caminho que conduz ao so-an, cabana com telhado de palha, caminho esse que alude ao espaço que se encontra mais além da vida humana, consumida por paixões e ilusões.

Excertos a partir de "El Jardin
Japonés', capítulos "Mitologia Taoísta e o "O Novo protótipo do jardim da época Momoyama: roji, o rústico jardim do chá", de Günter Nitschke, Taschen.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Alethéia e Ser-aí




"Pois falar da linguagem talvez seja ainda pior do que escrever sobre o silêncio". Martin Heidegger

"A linguagem está aí. É um emergente. Agora que emergiu, jamais saberemos quando, nem como começou, nem como era antes que fosse". Jacques Lacan

"O acolhimento singelo do sujeito interpretante como ideal (logo, capaz de ser acoplado por qualquer intérprete) esbarra no velamento da questão do ser-aí. Desvelando-se o sentido e a verdade do ser-aí, a pretensão da hermenêutica informada pela Filosofia da Consciência de chegar ao significado primevo dos entes somente pode ser feita singularmente e não mais de maneira universal. Sendo assim, a verdade é a verdade relativa do ser-aí. Diante dessa constatação, existe uma batalha contra a inautenticidade (a autenticidade mal-compreendida) e também em se rever a questão da hermenêutica jurídica; especialmente na abjuração das formas clássicas, legados da Filosofia da Consciência, porém ainda prevalente no senso comum teórico dos juristas".

A partir de um link entre Carnelutti e Heidegger, é possível "demonstrar que da compreensão do ser-aí não se pode fugir, por se estar envolvido desde sempre na existência (ontológica) do indivíduo. E essa existência se dá pelas (in)compreensões do mundo e do lugar ocupado (no mundo) e também pelas (in)compreensões que se tem delas próprias, deslizando de forma infinita no significante (LACAN). O referido movimento de ontologia fundamental demonstra que a interpretação do ser-aí é feita pelo ser-aí para o ser-aí, constituindo a existência de seu próprio alicerce. Sem se dar conta disso, incorre-se nos equívocos da Metafísica. Por outro lado, 'a questão do ser-aí envolve o reconhecimento da historicidade do próprio homem, por seu lugar na história que, todavia, o transpassa".

Excertos a partir da apresentação feita por Sylvio Lourenço da Silveira Filho, em discussão acadêmica do texto base denominado "Decisão Penal: a bricolage de significantes - capítulo 5: limites à epistemologia garantista", por Alexandre Morais da Rosa (http://lattes.cnpq.br/4049394828751754), parte do programa de pós-graduação em direito da Universidade Federal do Paraná - UFPR, disciplina 'crítica do direito processual penal'.

Alethéia diz respeito ao modelo binário heideggeriano de análise, que se dá através do jogo velamento-desvelamento dos significantes do ser-aí, que volta e meia pode ser observado flainando por aqui e acolá, de acordo com a rosa dos ventos...

sexta-feira, outubro 10, 2008

Integração da pessoa jurídica em consideração à pessoa física

Desconsideração ou quiçá integração da pessoa jurídica em consideração à pessoa física, é o que se pode dizer, leigamente e para propiciar um bom entendimento, da situação retirada das páginas da vida real, nesse mundo a cada dia mais virtual. A questão primordial a justificar a responsabilização de quem retira do público o seu ganha pão, mesmo quem se sente vítima de um terceiro estelionatário, justifica-se como sendo um dos riscos inerentes a quem aufere lucros do coletivo, como se fosse uma massa indissociada. Não se justifica, assim, quase sempre, as argumentações no sentido de que tais hipóteses, por não poderem ser previstas, isentam o prestador de serviços de sua responsabilidade objetiva, pelo simples fato de que coloca o seu produto no mercado. Aqui, veiculação de notícias. Se o site de relacionamentos ainda não tem como evitar que qualquer um use, anonimamente, o nome alheio e o exponha em público, isso é um problema a ser vencido pelo sistema... palavra mágica de nossos tempos: O SISTEMA!!! E quando você, tanto quanto eu, se sente impotente frente AO SISTEMA, uma boa dose de ânimo é defender-se de igual para igual, DE SISTEMA PARA SISTEMA, DE GENTE GRANDE PARA GENTE GRANDE. Como, poderia se perguntar o minúsculo consumidor lá nos confins de algum interior despovoado, onde as vozes dos pássaros ecoam mais profundamente... explico assim: pela defesa, em conjunto, dos direitos que nós, em conjunto, decidimos adotar como fazendo parte do nosso mínimo denominador comum... mínimo, porque tenho em grande estima e consideração a liberdade. Alguém poderia se perguntar se não foi a mocinha que, depois de descoberta, adotou essa teoria para justicar a sua intimidade anônima publicamente desvelada... sim, provas, a quem as incumbe... via de regra, para o lado mais forte da corda-bamba da vida, quando não se trata de uma relação equalitária entre partes.

A defesa, aqui, não é só da intimidade da mocinha, com o seu nome exposto a público, mas também da minha e da sua, que podemos nos ver em saias tão justas ou mais do que essa... privacidade é coisa séria, principalmente em tempos onde tudo nos espreita, a partir de uma realidade virtual e invisível...


"Yahoo! Brasil deve retirar do ar página de conteúdo inverídico"


"O site Yahoo! Brasil terá de retirar do ar página com conteúdo inverídico sobre uma mulher que ofereceria programas sexuais. A determinação foi mantida pela Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao não acolher os argumentos apresentados em recurso pela defesa da empresa virtual contra decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN).

Foi proposta ação de indenização por danos morais em favor de uma usuária da internet que requereu a desativação do site no qual é veiculado anúncio inverídico com ofertas de programas sexuais com sua pessoa, além de fotos pornográficas a ela atribuídas. O Juízo da 15ª Vara Cível de Natal determinou que a Yahoo! Brasil retire a página do ar sob pena de multa diária de R$ 200,00. O entendimento foi mantido pelo TJRN.

A empresa recorreu ao STJ, alegando que o site citado foi criado por um usuário da internet com a utilização de um serviço oferecido pela empresa Yahoo! Inc., em seu portal "http://yahoo.com", cabendo a essa empresa cumprir a determinação judicial questionada. Argumenta também que, por não ser sócia da Yahoo! Inc., mesmo no caso de desconsideração da personalidade jurídica daquela, não poderia ser chamada a responder à ordem judicial relativa à empresa americana.

Por fim, sustenta que, nos termos do Código de Defesa do Consumidor, as sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente responsáveis pelo cumprimento das obrigações decorrentes da aplicação de suas normas. Defende a tese de que, na condição de sociedade controlada pela Yahoo! Inc. e integrante do mesmo grupo societário, não poderia ser diretamente responsabilizada por prestação devida pela controladora.

Ao proferir seu voto, o relator do processo, ministro Fernando Gonçalves, esclarece que a Yahoo! Brasil apresenta-se aos consumidores utilizando a mesma logomarca da empresa americana e, ao acessar o endereço trazido nas razões do recurso como sendo da Yahoo! Inc. - www.yahoo.com - , abre-se, na realidade, a página da Yahoo! Brasil. Diante desses fatos, o ministro conclui que o consumidor não distingue com clareza as divisas entre a empresa americana e sua correspondente nacional.

Ressalta ainda que, mesmo tendo o recorrido afirmado que a Yahoo! Brasil é sócia da Yahoo! Inc., quando a situação é inversa, não tem o poder de alterar as conclusões ali referidas, pois ambas, de toda forma, pertencem ao mesmo grupo econômico. Com esse entendimento não conheceu do recurso da empresa virutal e manteve a decisão que determinou a retirada do ar da página com conteúdo ofensivo à usuária da internet".

A notícia ao lado refere-se ao Resp 1021987/RN.

http://www.stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=89550

terça-feira, outubro 07, 2008

Emaranhados ao Luar



Velas vão e vem...
És caixeiro viajante,
Sou porto seguro...

A Praia do Jacaré é famosa pelo seu pôr-do-sol, mas é praia de água doce. Não é mar, mas o tem como seu destino inevitável... assim como o emaranhamento, que escolheu o luar, quando retratou o pôr-do-sol, no encadeamento dos dias que se seguem ininterruptamente, faça chuva ou sol, pela manhã, tarde ou noite...

Engatinhando pela Vida Afora


domingo, outubro 05, 2008

Dose Cavalar




Numa única imagem,
Minha homenagem
A quem tem muita coragem...

Descontração para relembrar a quem precisa tomar as rédeas da desatenção para consigo mesmo...

"A maioria das pessoas são subjetivas a respeito de si próprias e objetivas - algumas vezes terrivelmente objetivas - a respeito dos outros. O importante é ser-se objetivo em relação a si próprio e subjetivo em relação aos outros" - por Kierkegaard, citado por Boaventura de Santos Souza, 'A crítica da razão indolente - Contra o desperdício da experiência', Cortez Editora, prefácio geral, pág. 17.

E assim nos convoca Boaventura em sua introdução:

"Não parece que faltem no mundo de hoje situações ou condições que nos suscitem desconforto ou indignação e nos produzam inconformismo. Basta rever até que ponto as grandes promessas da modernidade permanecem incumpridas ou o seu cumprimento redundou em efeitos perversos. No que respeita à promessa de igualdade os países capitalistas avançados com 21% da população mundial controlam 78% da produção mundial e bens e serviços e consomem 75% de toda a energia produzida. Os trabalhadores do Terceiro Mundo do setor têxtil ou da eletrônica ganham 20 vezes menos que os trabalhadores da Europa e da América do Norte na realização das mesmas tarefas e com a mesma produtividade. Desde que a crise da dívida rebentou no início da década de 80, os países devedores do Terceiro Mundo têm vindo a contribuir em termos líquidos para a riqueza dos países desenvolvidos pagando a estes uma média por ano de mais de 30 bilhões de dólares do que receberam em novos empréstimos. No mesmo período a alimentação disponível os países do Terceiro Mundo foi reduzida em certa de 30%. No entanto só a área de produção de soja no Brasil daria para alimentar 40 milhões de pessoas se nela fossem cultivados milho e feijão. Mais pessoas morreram de fome no nosso século que em qualquer dos séculos precedentes. A distância entre países ricos e países pobres e entre ricos e pobres no mesmo país não tem cessado de aumentar.

No que diz respeito à promessa de liberdade, as violações dos direitos humanos em países vivendo formalmente a paz e a democracia assumem proporções avassaladoras. Quinze milhões de crianças trabalham em regime de cativeiro na Índia; a violência policial e prisional atinge o paroxismo no Brasil e na Venezuela, enquanto os incidentes raciais na Inglaterra aumentaram 276% entre 1989 e 1996, a violência sexual contra as mulheres, a prostituição infantil, os meninos de rua, os milhões de vítimas de minas antipessoais, a discriminação contra os toxicodependentes, os portadores de HIV ou os homossexuais, o julgamento de cidadãos por juízes sem rosto na Colômbia e no Peru, as limpezas étnicas e o chauvinismo religioso são apenas algumas manifestações da diáspora da liberdade.

No que respeita à promessa de paz perpétua que Kant tão eloquentemente formulou, enquanto no século XVIII morreram 4,4 milhões de pessoas em 68 guerras, no nosso século morreram 99 milhões de pessoas em 237 guerras. Entre o século XVIII e o século XX a população mundial aumentou 3,6 vezes, enquanto os mortos na guerra aumentaram 22,4 vezes. Depois da queda do Muro de Berlim e do fim da guerra fria, a paz que muitos finalmente julgaram possível tornou-se uma cruel miragem em face do aumento nos últimos 6 anos dos conflitos entre Estados e sobretudo dos conflitos no interior dos Estados. Finalmente, a promessa da dominação da natureza foi cumprida de modo perverso sob a forma de destruição da natureza e da crise ecológica. Apenas dois exemplos. Nos últimos 50 anos o mundo perdeu cerca de um terço da sua cobertura florestal. Apesar de a floresta tropical fornecer 42% da biomassa vegetal e do oxigênio, 600.000 hectares de floresta mexicana são destruídos anualmente. As empresas multinacionais detêm hoje direitos de abate de árvores em 12 milhões de hectares da floresta amazônica. A desertificação e a falta de água são os problemas que mais vão afetar os países do Terceiro Mundo... Um quinto da humanidade já não tem hoje acesso a água potável.

Esta enumeração breve dos problemas que nos causam desconforto ou indignação é suficiente para nos obrigar a interrogarmo-nos criticamente sobre a natureza e a qualidade moral da nossa sociedade e a buscarmos alternativas teoricamente fundadas nas respostas que dermos a tais interrogações... Max Horkheimer definiu a teoria crítica moderna melhor que ninguém. Segundo ele, ela é, antes de mais nada, uma teoria fundada epistemologicamente na necessidade de superar o dualismo burguês entre o cientista individual produtor autônomo de conhecimento e a totalidade da atividade social que o rodeia: 'A razão não pode ser transparente para consigo mesma enquanto os homens agirem como membros de um organismo irracional".

Política sã


"A sã política não deveria ter por objeto fazer avançar a espécie humana, que se move por impulso próprio, seguindo uma lei tão necessária quanto a da gravidade, embora mais modificável; ela tem por finalidade facilitar sua marcha, iluminando-a". Augusto Comte, 'Système de politique positive', Apêdice III, 'Plan des travaux scientifiques nécessaires pour réorganiser la société, 1828, p. 95.

Auguste Comte é o sociólogo da unidade humana e social, doutrinário da ciência positiva e da ciência social. Propôs, em seu livro 'Opúsculus', que da mesma forma como não há liberdade de consciência na matemática ou na astronomia, não pode haver também em matéria de sociologia. O ponto de partida do pensamento de Comte é uma reflexão sobre a contradição interna da sociedade do seu tempo, entre o tipo teológico-militar e o tipo científico-industrial. Auguste Comte deseja ser, ao mesmo tempo, um cientista e um reformador. Qual é, pois, a ciência que pode ser certa nas suas afirmações e, ao mesmo tempo, imperativa, para um reformador... Incontestavelmente, seria uma ciência sintética a qual parte de leis mais gerais, das leis fundamentais da evolução humana, em busca de um determinismo global que os homens pudessem utilizar segundo a expressão positivista: uma 'fatalidade modificável'.

Montesquieu e Tocqueville atribuem uma certa primazia à política, à forma do Estado; Marx, à organização econômica. A doutrina de Auguste Comte se baseia na idéia de que toda sociedade se mantém pelo acordo dos espíritos. Só há sociedade namedida em que seus membros têm as mesmas crenças.

A filosofica de Comte pressupõe três grandes temas.

O primeiro é o de que a sociedade industrial, a sociedade da Europa ocidentral, é exemplar e se tornará a sociedade de todos os homens, cujos fundamentos são a condição da prosperidade e do poder. Ainda não está provado que Auguste Comte estivesse errado quando acreditava que certos aspectos da sociedade industrial da Europa tinham uma vocação universal.

O segundo é a dupla univerdalidade do pensamento científico. A vocação universal do pensamento positivo, que segue os métodos adotados pela espécie humana, quando os êxitos atribuídos à ela se tornam visíveis. No momento, porém, em que se começa a pensar positivamente em astronomia ou física, não se pode pensar de outro modo em termos de política ou de religião. O método positivo deve ser estendido a todos os aspectos do pensamento. Uma vez que a generalização do método positivo é evidente, estaremos condenados, então, a reproduzir em sociologia, moral ou em política o método da matemática e da física... o que se pode dizer é que esse debate continua, nas palavras de Raymond Aron.

O terceiro tema fundamental do pensamento de Comte é o do 'sistema de política positiva'. Como é possível explicar a diversidade, se a natureza humana é basicamente a mesma, se a ordem social é basicamente a mesma, de acordo com a sua concepção de que a história da humanidade é a história do espírito enquanto devenir do pensamento positivo ou enquanto aprendizado do positivismo pelo conjunto da humanidade.

Para Comte, a oposição entre operários e empresários é secundária, na medida em que o liberalismo não é a essência da nova sociedade formada com a partir da revolução industrial, mas um elemento patológico, um momento de crise no desenvolvimento de uma organização que será muito mais estável do que aquela fundada no livre jogo da concorrência.

A oposição essencial entre liberais e socialistas está no fato de que os primeiros acreditam na conciliação final dos interesses, e os segundos admitem o caráter fundamental da luta de classes.

Comte defende a propriedade privada e se opõe ao socialismo, por entender que a civilização material só se pode desenvolver se cada geração produzir mais e mais do que é necessário para a sua sobrevivência, transmitindo assim à geração seguinte um estoque de riqueza maior do que o recebido da geração precedente. A capitalização dos meios de produção é característica do desenvolvimento da civilização material, e leva à concentração, mas uma concentração que não deve determinar o caráter público da propriedade. Comte é, em verdade, indiferente à oposição entre propriedade privada e propriedade pública, porque considera que a autoridade, econômica ou política, é sempre pessoal. Em toda a sociedade, são homens, em pequeno número, que comandam. Um dos motivos da reivindicação da propriedade pública é a crença, bem ou mal fundamentada, de que a substituição do regime de propriedade modificaria a estrutura da ordem social e Comte é cético a esse respeito. Acredita que são sempre os ricos que detêm a parte do poder que não pode deixar de acompanhar a riqueza, e que é inevitável em qualquer ordem social. A propriedade privada é necessária, inevitável, indispensável; mas só é tolerável quando assumida, não como o direito de usar e abusar, mas como o exercício de uma função coletiva por aqueles que a sorte ou o mérito pessoal designou para isso.

Comte assumiu uma posição intermediária entre o liberalismo e o socialismo, podendo-se dizer ser um organizador que deseja manter a propriedade privada e transformar seu sentido, para que, embora exercida por alguns indivíduos, tenha também uma função social, concepção que não se afasta muito de certas doutrinas do catolicismo social.

Feitas essa breves interlocuções acerca de algumas nuances do pensamento do pai do positivismo, quem sabe seja de bom alvitre endossar um pedido de amém, de que assim seja, aos votos do imperativo categório que a nossa sociedade 'brasiliana' de hoje nos impõe para esse cinco de outubro de dois mil e oito. Assim, que a nossa obrigação seja cumprida de bom grado, em prol e benefício de quem este mundo habita e, de uma forma ou de outra, luta com afinco para não só fazer parte do que se conhece por sociedade, mas manter-se nela...

Excertos a partir de "As Etapas do Pensamento Sociológico", por Raymond Aron, Martins Fontes Editora, fls. 84-101.

Raymond-Claude-Ferdinand Aron (1905, 1983) nasceu na França e pode ser considerando um filósofo, um sociólogo e um comentador político, que recebeu seu doutorado em filosofia da história em 1930 na 'École Normale Supérieure'. Sua postura humanista e liberal fazia contra-ponto a Jean Paul Sartre e seu existencialismo marxista. Foi colunista influente do jornal "Le Figaro" e do semanário "L'Express", onde escreveu até a sua morte.

veja mais em http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u618.jhtm

quinta-feira, outubro 02, 2008

Alice no País das Maravilhas



Esse post aguardava pacientemente e, assim que recebeu a bandeirada de partida, veio aqui ansioso para compartilhar a foto da Alice, da Thaísa e do Brady, retratando um pedacinho da história que começou lá no País das Maravilhas, made in USA. Foi lá que a amiga da família, que nos foi apresentada pela minha irmã, arriscou concretizar seus sonhos. Hoje habitam em outras paragens, seguindo o rumo do nome-do-pai, que os guiou para um lugar um pouco mais central, nesse nosso mundo redondo, que dá voltas, como se ali mais adiante a grama pudesse nascer mais verdinha, mas não mais, certamente, do que em qualquer lugar em que seja regada com água, sol, amor e muito carinho... para que, então, o fruto desse amor possa ir lá colocar o seu pezinho... ;))