domingo, outubro 05, 2008

Dose Cavalar




Numa única imagem,
Minha homenagem
A quem tem muita coragem...

Descontração para relembrar a quem precisa tomar as rédeas da desatenção para consigo mesmo...

"A maioria das pessoas são subjetivas a respeito de si próprias e objetivas - algumas vezes terrivelmente objetivas - a respeito dos outros. O importante é ser-se objetivo em relação a si próprio e subjetivo em relação aos outros" - por Kierkegaard, citado por Boaventura de Santos Souza, 'A crítica da razão indolente - Contra o desperdício da experiência', Cortez Editora, prefácio geral, pág. 17.

E assim nos convoca Boaventura em sua introdução:

"Não parece que faltem no mundo de hoje situações ou condições que nos suscitem desconforto ou indignação e nos produzam inconformismo. Basta rever até que ponto as grandes promessas da modernidade permanecem incumpridas ou o seu cumprimento redundou em efeitos perversos. No que respeita à promessa de igualdade os países capitalistas avançados com 21% da população mundial controlam 78% da produção mundial e bens e serviços e consomem 75% de toda a energia produzida. Os trabalhadores do Terceiro Mundo do setor têxtil ou da eletrônica ganham 20 vezes menos que os trabalhadores da Europa e da América do Norte na realização das mesmas tarefas e com a mesma produtividade. Desde que a crise da dívida rebentou no início da década de 80, os países devedores do Terceiro Mundo têm vindo a contribuir em termos líquidos para a riqueza dos países desenvolvidos pagando a estes uma média por ano de mais de 30 bilhões de dólares do que receberam em novos empréstimos. No mesmo período a alimentação disponível os países do Terceiro Mundo foi reduzida em certa de 30%. No entanto só a área de produção de soja no Brasil daria para alimentar 40 milhões de pessoas se nela fossem cultivados milho e feijão. Mais pessoas morreram de fome no nosso século que em qualquer dos séculos precedentes. A distância entre países ricos e países pobres e entre ricos e pobres no mesmo país não tem cessado de aumentar.

No que diz respeito à promessa de liberdade, as violações dos direitos humanos em países vivendo formalmente a paz e a democracia assumem proporções avassaladoras. Quinze milhões de crianças trabalham em regime de cativeiro na Índia; a violência policial e prisional atinge o paroxismo no Brasil e na Venezuela, enquanto os incidentes raciais na Inglaterra aumentaram 276% entre 1989 e 1996, a violência sexual contra as mulheres, a prostituição infantil, os meninos de rua, os milhões de vítimas de minas antipessoais, a discriminação contra os toxicodependentes, os portadores de HIV ou os homossexuais, o julgamento de cidadãos por juízes sem rosto na Colômbia e no Peru, as limpezas étnicas e o chauvinismo religioso são apenas algumas manifestações da diáspora da liberdade.

No que respeita à promessa de paz perpétua que Kant tão eloquentemente formulou, enquanto no século XVIII morreram 4,4 milhões de pessoas em 68 guerras, no nosso século morreram 99 milhões de pessoas em 237 guerras. Entre o século XVIII e o século XX a população mundial aumentou 3,6 vezes, enquanto os mortos na guerra aumentaram 22,4 vezes. Depois da queda do Muro de Berlim e do fim da guerra fria, a paz que muitos finalmente julgaram possível tornou-se uma cruel miragem em face do aumento nos últimos 6 anos dos conflitos entre Estados e sobretudo dos conflitos no interior dos Estados. Finalmente, a promessa da dominação da natureza foi cumprida de modo perverso sob a forma de destruição da natureza e da crise ecológica. Apenas dois exemplos. Nos últimos 50 anos o mundo perdeu cerca de um terço da sua cobertura florestal. Apesar de a floresta tropical fornecer 42% da biomassa vegetal e do oxigênio, 600.000 hectares de floresta mexicana são destruídos anualmente. As empresas multinacionais detêm hoje direitos de abate de árvores em 12 milhões de hectares da floresta amazônica. A desertificação e a falta de água são os problemas que mais vão afetar os países do Terceiro Mundo... Um quinto da humanidade já não tem hoje acesso a água potável.

Esta enumeração breve dos problemas que nos causam desconforto ou indignação é suficiente para nos obrigar a interrogarmo-nos criticamente sobre a natureza e a qualidade moral da nossa sociedade e a buscarmos alternativas teoricamente fundadas nas respostas que dermos a tais interrogações... Max Horkheimer definiu a teoria crítica moderna melhor que ninguém. Segundo ele, ela é, antes de mais nada, uma teoria fundada epistemologicamente na necessidade de superar o dualismo burguês entre o cientista individual produtor autônomo de conhecimento e a totalidade da atividade social que o rodeia: 'A razão não pode ser transparente para consigo mesma enquanto os homens agirem como membros de um organismo irracional".

Política sã


"A sã política não deveria ter por objeto fazer avançar a espécie humana, que se move por impulso próprio, seguindo uma lei tão necessária quanto a da gravidade, embora mais modificável; ela tem por finalidade facilitar sua marcha, iluminando-a". Augusto Comte, 'Système de politique positive', Apêdice III, 'Plan des travaux scientifiques nécessaires pour réorganiser la société, 1828, p. 95.

Auguste Comte é o sociólogo da unidade humana e social, doutrinário da ciência positiva e da ciência social. Propôs, em seu livro 'Opúsculus', que da mesma forma como não há liberdade de consciência na matemática ou na astronomia, não pode haver também em matéria de sociologia. O ponto de partida do pensamento de Comte é uma reflexão sobre a contradição interna da sociedade do seu tempo, entre o tipo teológico-militar e o tipo científico-industrial. Auguste Comte deseja ser, ao mesmo tempo, um cientista e um reformador. Qual é, pois, a ciência que pode ser certa nas suas afirmações e, ao mesmo tempo, imperativa, para um reformador... Incontestavelmente, seria uma ciência sintética a qual parte de leis mais gerais, das leis fundamentais da evolução humana, em busca de um determinismo global que os homens pudessem utilizar segundo a expressão positivista: uma 'fatalidade modificável'.

Montesquieu e Tocqueville atribuem uma certa primazia à política, à forma do Estado; Marx, à organização econômica. A doutrina de Auguste Comte se baseia na idéia de que toda sociedade se mantém pelo acordo dos espíritos. Só há sociedade namedida em que seus membros têm as mesmas crenças.

A filosofica de Comte pressupõe três grandes temas.

O primeiro é o de que a sociedade industrial, a sociedade da Europa ocidentral, é exemplar e se tornará a sociedade de todos os homens, cujos fundamentos são a condição da prosperidade e do poder. Ainda não está provado que Auguste Comte estivesse errado quando acreditava que certos aspectos da sociedade industrial da Europa tinham uma vocação universal.

O segundo é a dupla univerdalidade do pensamento científico. A vocação universal do pensamento positivo, que segue os métodos adotados pela espécie humana, quando os êxitos atribuídos à ela se tornam visíveis. No momento, porém, em que se começa a pensar positivamente em astronomia ou física, não se pode pensar de outro modo em termos de política ou de religião. O método positivo deve ser estendido a todos os aspectos do pensamento. Uma vez que a generalização do método positivo é evidente, estaremos condenados, então, a reproduzir em sociologia, moral ou em política o método da matemática e da física... o que se pode dizer é que esse debate continua, nas palavras de Raymond Aron.

O terceiro tema fundamental do pensamento de Comte é o do 'sistema de política positiva'. Como é possível explicar a diversidade, se a natureza humana é basicamente a mesma, se a ordem social é basicamente a mesma, de acordo com a sua concepção de que a história da humanidade é a história do espírito enquanto devenir do pensamento positivo ou enquanto aprendizado do positivismo pelo conjunto da humanidade.

Para Comte, a oposição entre operários e empresários é secundária, na medida em que o liberalismo não é a essência da nova sociedade formada com a partir da revolução industrial, mas um elemento patológico, um momento de crise no desenvolvimento de uma organização que será muito mais estável do que aquela fundada no livre jogo da concorrência.

A oposição essencial entre liberais e socialistas está no fato de que os primeiros acreditam na conciliação final dos interesses, e os segundos admitem o caráter fundamental da luta de classes.

Comte defende a propriedade privada e se opõe ao socialismo, por entender que a civilização material só se pode desenvolver se cada geração produzir mais e mais do que é necessário para a sua sobrevivência, transmitindo assim à geração seguinte um estoque de riqueza maior do que o recebido da geração precedente. A capitalização dos meios de produção é característica do desenvolvimento da civilização material, e leva à concentração, mas uma concentração que não deve determinar o caráter público da propriedade. Comte é, em verdade, indiferente à oposição entre propriedade privada e propriedade pública, porque considera que a autoridade, econômica ou política, é sempre pessoal. Em toda a sociedade, são homens, em pequeno número, que comandam. Um dos motivos da reivindicação da propriedade pública é a crença, bem ou mal fundamentada, de que a substituição do regime de propriedade modificaria a estrutura da ordem social e Comte é cético a esse respeito. Acredita que são sempre os ricos que detêm a parte do poder que não pode deixar de acompanhar a riqueza, e que é inevitável em qualquer ordem social. A propriedade privada é necessária, inevitável, indispensável; mas só é tolerável quando assumida, não como o direito de usar e abusar, mas como o exercício de uma função coletiva por aqueles que a sorte ou o mérito pessoal designou para isso.

Comte assumiu uma posição intermediária entre o liberalismo e o socialismo, podendo-se dizer ser um organizador que deseja manter a propriedade privada e transformar seu sentido, para que, embora exercida por alguns indivíduos, tenha também uma função social, concepção que não se afasta muito de certas doutrinas do catolicismo social.

Feitas essa breves interlocuções acerca de algumas nuances do pensamento do pai do positivismo, quem sabe seja de bom alvitre endossar um pedido de amém, de que assim seja, aos votos do imperativo categório que a nossa sociedade 'brasiliana' de hoje nos impõe para esse cinco de outubro de dois mil e oito. Assim, que a nossa obrigação seja cumprida de bom grado, em prol e benefício de quem este mundo habita e, de uma forma ou de outra, luta com afinco para não só fazer parte do que se conhece por sociedade, mas manter-se nela...

Excertos a partir de "As Etapas do Pensamento Sociológico", por Raymond Aron, Martins Fontes Editora, fls. 84-101.

Raymond-Claude-Ferdinand Aron (1905, 1983) nasceu na França e pode ser considerando um filósofo, um sociólogo e um comentador político, que recebeu seu doutorado em filosofia da história em 1930 na 'École Normale Supérieure'. Sua postura humanista e liberal fazia contra-ponto a Jean Paul Sartre e seu existencialismo marxista. Foi colunista influente do jornal "Le Figaro" e do semanário "L'Express", onde escreveu até a sua morte.

veja mais em http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u618.jhtm

quinta-feira, outubro 02, 2008

Alice no País das Maravilhas



Esse post aguardava pacientemente e, assim que recebeu a bandeirada de partida, veio aqui ansioso para compartilhar a foto da Alice, da Thaísa e do Brady, retratando um pedacinho da história que começou lá no País das Maravilhas, made in USA. Foi lá que a amiga da família, que nos foi apresentada pela minha irmã, arriscou concretizar seus sonhos. Hoje habitam em outras paragens, seguindo o rumo do nome-do-pai, que os guiou para um lugar um pouco mais central, nesse nosso mundo redondo, que dá voltas, como se ali mais adiante a grama pudesse nascer mais verdinha, mas não mais, certamente, do que em qualquer lugar em que seja regada com água, sol, amor e muito carinho... para que, então, o fruto desse amor possa ir lá colocar o seu pezinho... ;))