sexta-feira, outubro 14, 2005

WHAT THE BLEEP DO WE KNOW?

WHAT THE BLEEP DO WE KNOW?

Esse é o nome do filme-documentário, que não se chamou 'what the fuck do we know' foi pelo receio de ser mal-educado. Mas o título assim queria apenas dizer, de forma mais enfática, da inerente dúvida que o desconhecido nos traz, fazendo-nos perguntar constantemente: o que, a final, sabemos nós? Sobre a vida e a morte, sobre nós e os outros, sobre a realidade e a ilusão...

Para os afetos aos textos orientais, em especial os trazidos pelas doutrinas hinduístas e budistas, mais acostumados à semelhança entre os ensinamentos dessas linhagens do pensamento e a física quântica, as inúmeras mensagens do filme talvez venham menos revestidas do impacto da novidade, tomando mais o contorno da confirmação, da repetição e até mesmo de uma velha ladainha. Ladainha, que só quer dizer uma cantilena lengalenga quando usada no seu sentido figurativo. Figurativo, simbólico, ou seja, uma tentativa de aproximação do significado real de ladainha, que é uma oração formada por uma série de invocações curtas e respostas repetidas (dic. Aurélio).

A grande questão acerca da ladainha não seria exatamente um problema se as invocações não tivessem o condão, quiçá, de se revestir do manto de uma realidade. Esse é um dos primeiros paradoxos que o filme nos traz. O de contestar o fato de que a realidade nos seja imposta por agentes externos, propondo que ela pode ser construída a partir do sujeito, do observador, de quem, enfim, a experimenta. E, via de conseqüência, nos chama para a responsabilidade acerca da forma como experimentamos, a partir de nossas ladainhas, a nossa realidade.

Ladainha, repetição de uma curta oração. Sankalpa, que para o hinduísmo significa a pronúncia constante de pequenas assertivas, no intuito de mudar certos padrões mentais.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Academia Universal das Culturas

A academia Universal das Culturas, sediada na França e presidida por Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz, é uma instituição sem fins lucrativos criada em 1992, cujo objetivo é defender e difundir os valores do humanismo e da democracia. Essa organização promove anualmente um fórum internacional durante o qual seus integrantes, assim como especialistas em todas as disciplinas, aprofundam um tema de interesse social.


CARTA DA ACADEMIA UNIVERSAL DAS CULTURAS

Reunidos pela primeira vez em 9 de novembro de 1992, por iniciativa de Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz, queremos proclamar nossa vontade de nos unir para pensarmos juntos o século XXI e, em particular, a 'mestiçagem' das civilizações que os impulsos migratórios, voluntários ou forçados, já estão criando por todo o planeta.

Para esse fim, assentamos fundar em Paris uma Academia Universal das Culturas, compostas por mulheres e homens consagrados ao verdadeiro e a o belo, e preocupados igualmente com o bem, isto é, com os valores que devem inspiraras novas interdependências entre as culturas.
Fundada em 1992, quinhentos anos após a 'descoberta' da América, ela deseja o encerramento de um período que, aberto para o estabelecimento de contatos entre todas as sociedades do mundo, foi com demasiada freqüência um tempo de dominação e de perseguição de umas pelas outras.

Ela animará pesquisas científicas, encontros, aventuras criadoras, e apoiará, especialmente com um grande prêmio, tudo o que puder contribuir para a luta contra a intolerância, a xonofobia, a discriminação dirigia às mulheres, o racismo e o anti-semitismo. Encorajará o combate contra a miséria e a ignorância, assim como contra a degradação deliberada de certas forma de vida.
Ela se compromete a difundir suas idéias a partir da escola, pelos meios de comunicação e por todos os instrumentos da enciclopédia do futuro.

Reunidos por essa comum e urgente ambição, os membros fundadores da Academia Universal das Culturas querem mobilizar a serviço dessa ética todos os recursos da inteligência e da imaginação humanas.
* * *

Dentre os membros da Academia Universal das Culturas há um brasileiro: JORGE AMADO. A seu lado figuram como membros nomes mundialmente reconhecidos, como Umberto Eco, Federico Fellini, André Frossard, Jacques Le Goff e José Saramago, dentre muitos.
* * *
HISTÓRIAS DE COMPLÔS
Humberto Eco
Excertos

"Quando se quer demonstrar a existência de um complô, nem a lógica nem a filologia importam: a fé no complô é suficiente."

"Convém dizer que a maneira pela qual muitas pessoas, no Ocidente, reagem hoje ao terrorismo é com freqüência sustentada pela esperança (por uma espécie de esperança desesperada) de que o Mal venha de um complô e de que seja suficiente destruir a fonte do complô para reencontrar a paz e a tranqüilidade.
Ao passo que o problema da globalização é compreender a lógica dos grandes sistemas a fim de controlá-los ou, em outras palavras, de governar-lhes a evolução. Convém saber que reduzir qualquer problema a um complô não é a maneira de reagir à globalização, mas sim uma das mais perigosas formas da globalização."

SAÚDE, TERRORISMO, GLOBALIZAÇÃO E INGERÊNCIA
Bernard Kouchner
Excertos

"Não considerar que somente o que nos toca é importante."

"A pobreza é o terreno fértil para o extremismo. Porque é na pobreza que se encontram bem mais facilmente pessoas que se revoltam ou acreditam revoltar-se pelo bem, a religião, o proselitismo, o fanatismo, e por outra idéia - muitas vezes falsa-, a igualdade.
É nesses países, por más razões, e não para defender os pobres, não para defender um mundo melhor, certamente não para fazer a paz, que se recrutam mais facilmente esses fanáticos, nos países que não conhecem a esperança. Como se pode suportar, ou como se poderia comprender este mundo, o nosso, este em que se trava essa guerra aparentemente clara entre o extremismo .... e a democracia, se não se vê que no domínio da vida cotidiana, da vida da imensa maioria do planeta, a pobreza cria problemas inimagináveis para a outra metade? O problema da Aids é um exemplo gigantesco disso. Precisamos nos mexer! Há pessoas condenadas. Há uma política de desenvolvimento que, teoriacamente, deveria fazer as coisas mudarem. Quando? Para cuidar das populações do Sul, será preciso esperar que elas se tenham desenvolvido, que tenham construído estradas, fábricas, hospitais e atingido nosso nível de desenvolvimento econômico? Isso é o que lhes é proposto. E não é aceitável - é economicamente falso e humamente insuportável."
* * *
A GLOBALIZAÇÃO COM OU SEM VALORES
Monique Canto-Sperber
Excertos

"O que torna tão difícil a apreciação da globalização contemporânea é o caráter constantemente intrincado dos julgamentos descritivos e dos julgamentos normativos: os primeiros descrevem aquilo que é, os segundos ou atribuem um valor àquilo que é ou o comparam àquilo que é ou o comparam àquilo que deveria ser."

"Nosso mundo é antes de mais nada um mundo onde a pobreza e a miséria constituem um lote de um aparte considerável das populações, mesmo dentro de países desenvolvidos. Mais que pela ausência de recursos, a miséria se mede pela ausência de perspectivas de um futuro ou de oportunidade de ação. De fato, a miséria não se reduz apenas ao fato de ter pouquíssimos recursos ou direitos formais; ela também designa o fato de estar desprovido de meios para transformar recursos, se estes fossem dados, em verdadeiras capacidades de agir, por falta de educação, de referências familiares ou morais, por falta de acesso às representações de um futuro, de um aperfeiçoamento de si ou de uma mudança na própria condição. Dispor de meio para transformar recursos em verdadeiras capacidades de agir, por falta de educação, exige viver em um mundo que ofereça reais possibilidades de desenvolvimento de si e supõe que a cultura à qual se pertence tenha podido formar em cada um a faculdade de adaptar-se.
Todos nós, ocidentais, tendemos a considerar que o fato de ter acesso a meios de desenvolvimento pessoal e de transformação dos recursos em reais capacidades de agir é uma coisa extremamente positiva, mas não devemos esquecer que o fato de uma cultura haver possibilitado isso é o resultado de uma história real, história essa que, para criar tais possibilidades, precisou renunciar a outras formas mais tradicionais de existência. Por isso, mesmo que consideremos o desenvolvimento como um bem em si, não podemos subestimar o seguinte dilema: convém deixar as culturas em formas de equilíbrio nas quais elas subsistem dentro de economias fechadas, com poucos recursos e poucas possibilidades de mudanças coletivas ou individuais? Ou seria preferível ressituar essas culturas na grande circulação mundial, sem dúvida enriquecendo-as, mas também destruindo os equilíbrios que lhes permitiam subsistir, com os subseqüentes fenômenos de pauperização e perda de referências que uma tal revolução induz? É verdade que, entre as culturas arrastadas ao movimento contemporâneo de unificação, algumas se beneficiam de uma lenta melhoria da qual acabam emergindo novas formas de equilíbrio e uma condição global melhor, ao passo que outras avançam e afundam ao mesmo tempo. Cava-se assim o fosso entre uma globalização que, para uns, designa uma forma de retardo mal dissimulada por um encantamento tecnológico e, para outros, uma real melhoria coletiva."
"Em que a globalização pode ser um bem? Responderei a essa pergunta lembrando a realidade de uma rede de trocas que até agora me limitei a mencionar e que tem a ver com a cultura (maneiras de viver, tipos de socialidade) e com os valores. A difusão de um tipo de atitude diante de outrem e do grupo, a pregnância de uma orientação diante dos valores e normas não vem necessariamente junto com a importação de um jeans e de computadores pessoais. O mundo de hoje nos oferece claramente o exemplo de um mundo onde as mercadorias e os capitais podem circular, onde hábitos de consumo e modos de vida idênticos podem se espalhar, onde as culturas importadoras podem assimilar todos esses aportes mantendo-se, ainda assim, impermeáveis à democracia, às Luzes, às formas de emancipação da pessoa humana e mesmo aos valores de respeito e de dignidade do indivíduo. Semelhante penetração diferenciada dos elementos de uma cultura ou outra nos leva a constatar toda a medida de um fenômeno sem precedentes em nossa civilização. Trata-se da dissociação inteiramente nova entre, de um lado, a apropriação das técnicas de produção, de comunicação e de troca oriundas de uma cultura (por exemeplo: as conquistas da ciência, o sistema industrial, as ferramentas da informação etc.) e, de outro, a aceitação da ordem político-social em que essas técnicas se desenvolveram historicamente, a saber, os valores do Ocidente democrático. É o credo de Condorcer que é negado hoje, a saber, a crença num progresso uniforme e simultâneo da emancipação do espírito humano, da capacidade de servir-se das descobertas científicas e da interiorização dos valores das Luzes. O que observamos é exatamente o contrário. A civilização tecnológica e científica nunca esteve tão dissociada das formas históricas que a sustentaram, nunca foi tão instrumentalizada por culturas radicalmente opostas aos valores de tolerância, de livre circulação de idéias, de publicidade, de controle democrático, sem os quais essas descobertas científicas e técnicas certamente não teriam sido possíveis."
"É de se espantar que as mercadorias e as técnicas sejam mais universais do que os valores ligados ao respeito pelo indivíduo ou pela democracia? Não, pois está claro que, se as mercadorias ou as modas de consumo podem ser difundidas, se a técnica pode ser utilizada, em contrapartida é provável que nem os valores nem a democracia possam ser impostos a partir de fora. Bastam alguns anos para moldar o consumo e os mercados, mas são necessárias décadas de autocrítica e reflexão para estabilizar valores. Tal processo exige não somente a criação de instituições, mas também aquilo que poderíamos chamar de 'uma face interna', um longo trabalho de interiorização e educação, e portanto um necessário tempo de maturação."
"O mundo comum ao qual podemos aspirar não seria o mundo de uma cultura dominante, mas um mundo onde culturas refletissem juntas a partir de suas próprias tradições. ... É também o único meio de enfrentar os choques ou os confrontos que são inevitáveis. As forças das trevas continuam, bem recônditas. Mas, quando surgem numa cultura habituada a um certo trabalho crítico, sem dúvida causam menos estragos do que numa cultura inconsciente de suas partes sombrias. Ter isso sempre em mente não muda nada na maneira pela qual raciocinamos e tentamos agir visando o melhor, mas talvez nos deixe menos despreparados quando ressurgem a violência ou a paixão irracional."
PROBLEMÁTICA DAS MUNDIALIZAÇÕES
François de Bernard
Excertos
"Assim, tudo está bem. Tudo poderia estar. 'A mundialização' poderia ser essa coisa unívoca e pacífica, sem história nem tormento, sem controvérsia nem vítima... com que muitos sonham. Mas não o é. E, tanto pior para a felicidade simples dos que falam claro no oceano das ambigüidades, a desenvoltura deles não resiste nem à prova da análise nem à experiência do sofrimento social, moral e político contemporâneo."
“De certa maneira, poderíamos dizer que ‘o jogo da mundialização’, este jogo do qual somos livres para participar ou não, consiste para o jogador focalizar ‘rio abaixo’ a atenção dos ‘tapeados’, apresentado ‘ mundialização’ reduzida à globalização econômica como um fato maciço e indiscutível do qual só restaria avaliar as relativas vontade ou toxicidade. Será ela Bem ou Mal, eqüitativa ou injusta, provedora de desigualdades ou de chances, mais produtora de benefícios ou de desgraças? O terreno de tais contradições aparentes permite assegurar a vitória. Porque, qualquer que seja o julgamento afinal feito pelo ‘tapeado’, se ele tiver admitido situar-se nesse terreno – o da evidência de uma mundialização-globalização cuja realidade e até cujas figuras ele não poderia questionar -, o resultado só pode ser xeque-mate. O simples gesto que consiste em repetir a ‘mundialização’ sem hesitação, como se ela se limitasse a esse fato que nos é designado, torna-a novamente inatingível e reforça um pouco mais a dominação daqueles que lhe controlam a função, o sentido e a utilização.
Assim, a mundialização-globalização permanece estritamente no terreno da dominação e de uma moral binária. Por isso, está mais do que na hora de levar a sério o seu próprio conceito – uma seriedade que supõe no mínimo combinar as abordagens e os trabalhos do historiador e do filósofo, do antropólogo e do geógrafo, do sociólogo, do artista e do escritor, sem exclusão. A fim de escapar às regras desleais do jogo evocado há pouco, será preciso, portanto, esforçar-se por ‘sair dele’, por afastar-se radicalmente dele, por manter-se à distância do seu terreno – o espaço global da dominação moral -, para fazer, como diria René Char, um ‘retorno rio acima’. Retorno rio acima em direção a uma globalização econômica, financeira e política que, com um pouco de paciência e vontade, poderá ser obrigada a dizer seu verdadeiro nome; retorno ri acima em direção à sua história própria no sei da História; em direção ao caminho que ela abriu para si mesma, adotando diversos adornos para melhor confundir o freguês; em direção a um a história que põe em evidência vínculos delicados, ou mesmo críticos, entre democracia e mercados, ética e capitalismo, desigualdade e crescimento, por exemplo. Mas também retorno rio acima em direção a mundializações que se inscrevem alhures, que por seu próprio movimento desbravam outras possíveis leituras do mundo, outros desejos, outras ambições de cidadania. Mundializações plurais que, no espírito de uma outra história que não a da dominação, se empenham em multiplicar os meios e as realizações de partilha no seio de um mundo efetivamente reconhecido pouco comum: partilha dos saberes, partilha das culturas, partilha das religiões, partilhas das educações, partilha das ciências, partilha dos direitos e partilhas dos deveres!”

“As mundializações, portanto, revelam-se também como movimentos de desenvolvimento e de partilha das culturas. Por isso é essencial retomar a questão da ‘diversidade cultura’ em sua especificidade presente, e, precisamente, no horizonte novo daquilo que se denomina mundialização e globalização, duas moedas que não designam o mesmo valor. ‘Num contexto de mundialização das trocas, é preciso explorar o formidável potencial que elas representam para um melhor conhecimento recíproco entre os povos e as culturas. Novos espaços de expressão, de criatividade, de troca e de inovação vêm à luz. É preciso fazer tudo para que eles beneficiem o conjunto da humanidade. Eles não devem traduzir-se por uma uniformização e um empobrecimento culturais, nem reduzir-se a simples trocas mercantis’. (declaração do diretor-geral da UNESCO em 11.12.2000, por ocasião de uma mesa redonda de ministros da Cultura.). A aposta é a de restituir a essa questão da diversidade cultural, se não fundamentos partilháveis para além das clivagens políticas e nacionais ordinárias, pelo mesmo um quadro de elaboração que o afaste da acusação de facticidade. Portanto, a diversidade cultural deve efetivamente tornar-se um projeto – como a globalização, que é de fato um -, e um projeto cosmopolítico.”

* Fonte: Globalização para quem? Organizado por Françoise Barret-Ducrocq - Ed. Futura.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Sidade




Já sem idade
Fantasma na cidade
Cadê saudade?

Será um dia
Não importa a idade
Reencontrar-te alegria?

Enfim um dia
Além corpo e alegoria
Viva eu essa cidade!

II


Sidade
Saudade!
Ô, Cidade.

Quantas saudades
Quando na cidade
O si era sem idade...

Outrora em si,
Gentes se perdem de si
Já não há Sidade.




III

À espera do retorno,
Na cidade vagueiam,
Miragens de Sidade!

Cidadãos em vão,
Cegos na ilusão
Se abrigam em coração.

Mas há os que lutam!
Ó, Cidadãos que iluminam,
Minha cidade e minha esperança
Sem idade...



quarta-feira, agosto 31, 2005

Colhendo flores

Vou inaugurar aqui o que chamarei de colhendo flores - registrar pensamentos e ditos para cultivar o jardim da vida de dias melhores, que todos desejamos.



"Sarvatah saram adatte yatha madhu-karo budhah."
"O homem inteligente extrai a essência do conhecimento de todos os lugares, assim como a abelha coleta o néctar de cada flor." Bhagavatam IV:18.2.



"The last years of his life were devoted to the founding of the Khaldunia university, which he hoped would 'produce a modern progressive secular educated class of people who know the traditions and take the best of it'. They would, he hoped, join with activists working locally to construct 'alternatives that empower people and make alternative plans for economic growth', constructing a functioning democracy from below that will not simply caricature the word.

Eqbal describes with warmth and feeling the Sufi tradition that he remembers from his childhood in a village in Bihar, where Sufi worship united Hindus and Muslims. Simple and unpretentious, 'they preached by example', living 'by service and by setting an example of treating people equally without discrimination'. They appealed to the most oppressed, offering 'social mobility, as well as dignity and equality to the poor'.

I think Eqbal would not have been distressed to find himself remembered as a secular Sufi teacher and guide - by example in his life, by the power of his thought and words."

Thoughts Of A Secular Sufi, by Noam Chomsky, about Eqbal Ahamad's - at
www.chomsky.info


"No significant change occurs unless the new form is congruent with the old. It's only when a transplant is congenial to a soil it works. Therefore, it is very important to know the transplant as well as the native soil." Dr. Eqbal Ahamad.


Dificuldade e Prosperidade, em chinês, são grafados pelo mesmo ideograma. Isso não é novidade. Tampouco o fato de que são os atos que tragam em si um genuíno gesto de amor os responsáveis pela mágica de transmudar a dificuldadade em prosperidade. Talvez seja por isso que tanto repetimos certos padrões, nessa ininterrupta busca do que chamo essência - o amor. (euzinha)
Em 1º.09.2005.

Aos amigos, aos amores - flores!


"Pode haver nada mais confortável neste mundo do que um amigo velho?Não tem surpresas conosco, mas também não espera de nós o que não podemos dar. Não se escanaliza com o que fazemos, não se irrita, ou se se irrita, é moderadamente.... Não precisa a gente lhe explicar nada, o mecanismo de novos interesses e até mesmo de novos amores, porque o velho amigo conhece todos os nossos mecanismos. Mas, além dessa capacidade de compreensão quase infinita, se o amigo velho nos é acima de tudo precioso é porque preciosos também somos nós para ele." Raquel de Queiroz

"Se me obrigarem a dizer por que gostava dele...sinto que isto não se pode exprimir senão respondendo:Porque era ele, porque era eu." Montaigne (dessa frase eu gosto muito).

Em 3.9.2005

Hoje lembrei do Titãs cantando: eu vejo flores em você! Mas não tem essa frase na letra da música Flores. Lá elas são de plástico e, por isso, não morrem. Mas sob um certo ponto de vista, a gente não deveria ter medo da morte, pois é preciso que certos apegos morram para que uma vida diferente possa fluir com outros ritmos, nuances, vibrações e cores!!! E ver flores em alguém também pressupõe que alguma flor desabrochou em nós. Coisa boa que é saber que o nosso jardim está, novamente, de braços abertos para mais uma primavera!!! Faz bem lembrar que para vencer as ervas-daninhas, uma flor sempre agradecerá se for regada com gestos de amizade, carinho, confiança e... de novo, o tal do amorzinho!!! Então hoje é isso: eu quero sim ver muitas flores em você!!! E só prá contrariar esses afãs titânicos que nos acometem, dizer que as flores plantadas no coração, essas sim, não morrem jamais. Vivem eternas, não por serem feitas de plástico, mas por reverberarem na lembrança a intensidade de momentos presentes. Ah... tem presente melhor na vida que esse presente?

Em 09.09.2005

"Montaigne referia-se a La Boétie, sua alma irmã. Revendo a frase no seu blog, lembrei de outra, da qual também gosto muito. Também de Montaigne, falando igualmente de sua amizade com La Boétie:
(...) e assim se preparou essa amizade que nos uniu e durou quanto Deus o permitiu, tão inteira e completa que por certo não se encontrará igual entre os homens de nosso tempo. Tantas circunstâncias se fazem necessárias para que esse sentimento se edifique, que já é muito vê-lo uma vez cada três séculos.
Capítulo XXVIII, Da Amizade." - Essa flor eu registro aqui para que possamos vê-la florescer a cada primavera, cada vez mais bela. A amizade assim é feito aquele pijama gostoso ou qualquer roupa de ficar em casa, que a gente usa para se entregar ao encontro da liberdade de expressão com o aconchego.

Em 20.9.2005.

"Nós podemos chegar a ser cultos com conhecimento de outros homens mas nós não podemos ser sábios com sabedoria de outros homens." Hoje, novamente inspirada em Montaigne. Mas por que concordo com a assertiva? Pela inerente diferença entre a teoria e a prática. Apenas quando vivenciamos as teorias é que podemos emitir um saber sobre o dito que portam. O tempo, aqui, é o lógico, não o linear.

Em 21.9.2005.






domingo, agosto 28, 2005

O perdoar e o punir fazem bem ou mal, para quem for bom ou mau?



Hoje fico com algumas assertivas zás-trás:

A razão maior para pedir desculpas é o perdoar a si mesmo. Se você pedir desculpas sentido mágoa, já é um bom passo, mas melhor é pedir desculpas de coração livre. Quando você pede desculpas assim, é por você mesmo que o faz, quando já se perdoou. Mas talvez o medo da rejeição seja o que barre o ato. Não importa o outro, necessariamente. Se ele quiser passar por cima de você, abaixe-se e deixe que as suas costas sirvam-lhe de trampolim. Assim você evita de gastar sua energia com atritos desnecessários. Mas isso não é sinônimo de rever sua posição - a de pedir desculpas, por achar que assim deve fazê-lo. As desculpas não se confundem com a postura de manter os princípios que entender justos e corretos, até mesmo pelo que se conhece por livre-arbítrio. Há de se respeitar as diferenças, a liberdade, sempre!

Não existe essa história de que numa discórdia não estejam implicados dois corações. Não olvide, o perdão é com você, aceitar o seu pedido de desculpas é com o outro - talvez ele mesmo ainda não tenha perdoado a si próprio, esteja com vergonha, vai saber, não é mesmo? Se entender a verdade desse dito será mais fácil quando as desculpas não forem aceitas. E se o amor for genuíno, tudo ficará bem. Tem também tantos jeitos de pedir desculpas. Alguns o fazem brincando, outros agindo como se nada tivesse acontecido. Às vezes vai bem, as coisas ficam mais leves - mas isso serve para reaproximar, nem sempre para superar os contra-pontos. Não dá para fugir das nossas verdades, pois se a gente não as enfrentar de um jeito, no mínimo do melhor jeito possível, o reflexo de ignorá-las voltam nos richocheteando. Esse é um jeito de ensinar, pelo exemplo de ser quem se é.

Como também é por amor que você diz não, que você inflige alguma 'punição'. Uma segunda forma de ensinar. Às vezes se pune por amor a si mesmo, para proteger a sua auto-estima, a sua mágoa. A isso eu conhecia quando criança pela expressão: 'iiii, fulano (a) amarrou o burro!'. Mas há um punir que vai para além disso - aquele que pune com o único intuito de ensinar as regras do jogo. O punir legítimo se faz necessário, pois porta em si a necessidade de educar, de colocar o outro em movimento por si mesmo, como dizendo - você quer comer, então venha até aqui dar a sua contribuição para o seu alimento. Mas preste muita atenção: você nunca legitimimará a sua forma de ensinar, mesmo que isso implique dizer um não, de caráter 'punitivo', agindo do mesmo modo, de forma idêntica à postura que entende equivocada. Imagine assim: uma criança vê um pai ou uma mãe o tempo inteiro contando mentiras -, como será que a criança vai entender quando ouvir: filho, mentir é feio. Talvez conclua que os pais são feios... mas se os achar bonitos -ou você acha que só os filhos são bonitos para os pais?-, como será que a criança vai processar essa informação? Quem sabe cresça em um eterno conflito entre a postura de mentir ou falar a verdade e o reconhecer-se como feio ou bonito. Podemos torcer para que a lógica do seu desejo se fundamente no falar a verdade para se reconhecer bonito como acha seus pais, mas pode ser que minta para se reconhecer bonito, pois seus pais não são feios e se eles mentem... Inúmeras poderão ser as formas de interpretação na tentativa de compatibilizar a dissonância entre o ato e a fala e, a partir daí, formar um dito, uma verdade - uma verdade construída por amor. Porém, uma verdade construída por emoções que não entendem e se resolvem do melhor jeito possível para justificar esse amor de criança, cujas razões poderão, mais tarde, ser de difícil compreensão pela lógica racional. Eis aí uma forma de tentar explicar a diferença entre a ética do desejo e a ética social.


Ah, isso hoje tá bem fraquinho para toda essa discussão. Mas hoje é domingo, aqui dia de céu azul, de barquinho deslizando no lago, dia de escutar música, de sorrir, de pedir perdão e fazer as pazes. Então vai lá e diz assim: haja o que houver, eu sempre estarei aqui do seu lado. De você para você mesmo.

II - A mesma coisa, de um jeito diferente.

Ideais inspiram mais que mandamentos, por Annie Besant.*

"A segunda grande idéia sobre a qual assenta a nossa Sociedade é que as emoções de um homem evoluído guiam-se melhor por Ideais inspiradores do que por códigos e leis. É esta a segunda pedra sobre a qual se ergue a nossa Sociedade. Há duas maneiras de ensinar moralidade. Uma diz: 'Farás isto e não farás aquilo'. Impõe mandamentos e proibições, e obriga por meio de penas à obediência a esses mandamentos. A outra ergue o Ideal de amor nobre e do sacrifício de si próprio, da pureza e do auxílio, e deixa que estes, pelo seu poder sobre o espírito, consigam que os homens imitem as vidas nobres e assim as realizem. A primeira é a maneria que forçosamente têm de empregar o Estado e todos os governos laicos; ao passo que a outra é a de toda verdadeira Religião, que leve um indivíduo a seguir uma vida espiritual. Porque a nossa Sociedade é uma Sociedade espiritual, e porquê crê que o homem é fundamentalmente divino, que a razão é um tesouro sem preço e não uma ilusão, que a inteligência precisa ser livre para poder investigar todos os assuntos, que o Belo, o Bom, o Verdadeiro basta serem vistos para serem amados, por isso dedicamos a nossa Sociedade à Inspiração de grandes ideais, e não à difusão de qualquer crença estreira ou estreito código de leis. Se um irmão cai, preferimos tirá-lo do atoleiro, ajudando-a a sair, a excluí-lo da Sociedade por ser indigno do nosso convívio.São estas as pedras sobre as quais assenta a nossa Sociedade, e, enquanto sobre elas assentar, durará."

*Novamente, Annie Besant, em 'Os ideais da Teosofia', tradução de Fernando Pessoa, Ed. Teosófica, pág. 21/22.

Em 29.8.2005.

III - Como se fosse fácil...

É, eu sei que tudo isso é fácil de falar, porém muito mais difícil de praticar. Mas quanto a isso eu acho que a teimosia é a melhor qualidade a ser desenvolvida. É inevitável que a gente sinta emoções negativas no convívio com o outro... O que eu faço? Não sossego até descobrir onde reflete em mim esse espelhar da atitude alheia, a debochar da minha razão, espetando a emoção. Ou seja, a pergunta é: onde eu me implico nisso? Pois se algo reverbera em nós, é, no mínimo, pelo fato de que não somos isentos a esse algo que, mesmo no contra-ponto, é o reverso da mesma coisa.

"Nunca seja mesquinho. Não alimente ressentimentos contra quem quer que seja. Prefiro pecadores de bom coração às chamadas pessoas boas, que sejam intolerantes e destituídas de compaixão. Ser espiritualizado é ter mente aberta, compreender e perdoar, e ser amigo de todos.

A lei básica para um comportametno humano correto é a auto-reforma. Sempre que houver qualquer dificuldade em nosso relacionamento com amigos ou familiares, deveríamos interiormente nos censurar por nos termos colocado numa situação desagradável, tentando sair dela o mais rápida e elegantemente possível. É inútil agravar o problema reprovando os outros, com gritos, falta de amabilidade e cortesia, mesmo quando achamos que a culpa é deles. Aos ente queridos que sejam geniosos, podemos ensinar a corrigirem suas falhas dando-lhes um bom exemplo, e isso é cem vezes melhor do que utilizar palavras ásperas ou presunçosas."

"Tudo o que partir de você voltará a você. Odeie e receberá ódio em troca. Quando se deixa invadir por emoções e pensamentos desarmoniosos, você está se destruindo. Por que odiar ou ter raiva de alguém? Ame seus inimigos. Por que arder no calor da ira? Se ficar com raiva, trate de superar esse estado imediatamente. Saia para uma caminhada, conte até dez ou quinze, ou desvie a mente para algo agradável. Abandone o desejo de represália. Quando você se encoleriza, o cérebro se superaquece, o coração tem problemas com as válvulas, todo o seu corpo se desvitaliza. Irradie paz e bondade, pois essa é a sua verdadeira natureza. Então ninguém poderá perturbá-lo."



Por Paramahansa Yogananda, "Onde existe Luz".

Em 30.8.2005.

E hoje, dia 23/05/2006, complementando:

"Dias desses li: 'Perdão a gente não pede, conquista'.

Mas e daí, se isso for verdadeiro, isso exclui necessariamente o que eu escrevi nesse tempo aí atrás, quando afirmei que perdão a gente pede é pela gente?

Well, well... como diria alguém que teve a gentil paciência de me escutar por tempos significativos, é preciso ter muita humildade para perdoar a si só.

Well, well... como digo eu então agora: então, primeiro a gente precisa é perdoar a si mesmo pelo fato de que às vezes a gente escorrega, como que pisando numa casca de banana, por essas andanças mundo a fora? Bem igual àquele jeitinho que aconteu comigo, quando ainda na faculdade, que foi quando aprendi que quando a gente escorrega na casca de banana, a gente cai com a buzanfa no chão, feito desenho animado, trazido para a vida real, do jeitinho que ela é?

Well, well... acho que esse é o primeiro passo então, essa coisa do perdão ao nosso egão, para que a gente recupere o fôlego e parta para as próximas conquistas!!!!!!!

Well, well... acho que eu concordo com vc, baby. De mim, para mim mesma, num conversê nada particular.

sábado, agosto 27, 2005

Um não bem-educado, por um bem-educado, muito obrigado!

Lá veio o Murilo** ontem, me contando como aprendeu a ser mal-educado! Tst, tst, tst... um moço tão bem-educado, num país de tantos carentes de educação, não deveria concluir assim. Digo concluir, pois falar bem, isso sim a educação possibilitou ao Murilo o lapidar, extraindo o brilho do seu bruto - DiAmante!!! Pausa aqui para registrar a minha rima singela - um redutível que foi possível, de um belo, muito belo:

Minha arte
É lapidar teu bruto
Extrair teu brilho
DiAmante.


Voltando ao Murilo, depois de explicar direitinho o be-a-bá da sua educação religiosa, a qual aceitava antes de se render ao agnosticismo, que lhe ditava os mandamentos de perdir perdão e perdoar - esse último, sem pedido ou não, mas sempre de prontidão e proporcionalmente à ordem numérica elevada à magnitude, de setenta vezes sete, no mínimo -, deu o tom da sua cultura, da sua formação filosófica, e falou de Sartre. O sobrinho de um barão assinalado pela ridicularização decorrente de perdoar seus empregados, nos confins da África, toda a vez que roubavam comida da casa do patrão, chamado Albert Schweitzer, famoso missionário de sua época. Sobre ele, disse o Murilo exatamente assim:

"Ah, e era tio de Jean-Paul Sartre, o sobrinho filósofo que teria dito que levou trinta anos para se libertar da personalidade fortíssima, dominadora, de Schweitzer. No livro, Schweitzer inovou, ao revelar-me um conceito impressionante. Disse que, lá na África, os empregados negros de vez em quando roubavam algo da casa, e ele Schweitzer, dentro da moral cristã, os perdoava - imagino eu que pelo menos setenta vezes sete. Resultado: dentro em pouco não o respeitavam mais. Os outros empregados perdiam o respeito. Ele aprendeu que tinha que punir o faltoso e aí ganhava o respeito dos demais. O raciocínio deles era o seguinte: patrão que perdoa é porque é fraco, porque precisa do trabalho do ladrão, porque não tem condições de demitir o ladrão. Patrão forte, poderoso, pune, põe na chibata, o faltoso, mostrando que não tem medo de o empregado ir-se embora."

Vou prosseguir com ele, o Murilo, para compartilhar um pouquinho a razão do meu bem-querer:

"Perdoar os outros nunca foi problema. Para alguém criado dentro do ensinamento de que somos imperfeitos, é fácil entender e perdoar a imperfeição alheia, e perdoá-la infinitamente. O problema que me aconteceu foi outro. Foi quando eu pedia perdão ou desculpa.

Nos primeiros tempos tudo bem, porque como eu vivia dentro da igreja, estudando em colégio da igreja, todos os amigos, bem como os desafetos, eram da igreja, e o sistema de pedir perdão funcionava admiravelmente. Mas quando entraram membros de outras comunidades, a fórmula passou a dar errado. "


.... pausa para o trecho do tio do filósofo, suprimido e deslocado, lá em cima .....


"Foi então que percebi que havia sido educado não para um mundo religioso, mas para um mundo de cavalheiros e damas. Um cavalheiro ou uma dama são, acima de tudo, pessoas muito seguras de si, muito cônscias do próprio poder. Não precisam de artifícios para afirmar um poder dentro do qual nascem. Daí a expressão "bem-nascido", "de boa estirpe", "de cepa nobre," sempre referências às raízes. Os nobres nascem encarando o poder com a maior naturalidade, como algo que faz parte deles. Então, quando recebem um pedido de desculpas, valorizam quem pediu as desculpas. Vêem no ato um ato de grandeza. Passam a gostar mais, e não menos, da pessoa que se desculpou. Valorizam-na, como portadora de boa índole e de boa educação, em vez de desvalorizá-la. Vêem o ato de pedir desculpas pelo lado positivo, não pelo lado negativo. Pensando ter sido educado numa comunidade cristã, flagrei-me tendo sido criado numa comunidade de mentalidade típica de nobres.

Já a plebe ignara, a plebe rude, vê de outra maneira. Qualquer pedido de perdão, de desculpas, é sinal de fraqueza ou, pior ainda, de insinceridade, e desqualifica e desvaloriza quem se humilhou. Ou as desculpas não são aceitas, a título de desculpas esfarrapadas, ou são aceitas, mas geram no ofendido o direito de tratar arrogantemente o que se desculpou. Pedir desculpas à plebe é uma catástrofe. O que justifica, infelizmente, o dito dos nobres de que a plebe não tem razão, nunca.

Isso tem duas consequências. Uma, é que é fácil distinguir quem é nobre e quem é plebeu de espírito. Peça desculpas, e veja a reação. Se a reação for de reatamento, de tudo bem, aconteceu, mas está superado, você está lidando com um ou uma nobre de espírito. Se a reação for você está dando uma desculpa desonesta, esfarrapada, você está é procurando se eximir da responsabilidade - não tenha dúvida, você está lidando com um plebeu de alma. Ou plebéia.

Em termos de frequência, descobri que, nesta terra idolatrada em que vivemos, a plebe de espírito supera, em muito, a nobreza. Esta última, tenho que reconhecer, ainda é conservada pelos presbiterianos, metodistas, e bem menos mas ainda um pouco pelos adventistas (essa é minha experiência de colégio interno), ou por outros setores conservadores da sociedade, que não se modernizaram por um lado mas, por outro, mantiveram os valores da nobreza. Em outros setores, porém, caiu-se não na farra, mas no plebeísmo espiritual. Que é sinônimo de ódio ao ser humano. Se você se humilha, se você pede perdão, tanto pior para você. Não tem desculpa, não tem perdão. Você está sendo oportunista, você está fugindo, não está enfrentando.

E foi assim que fiquei mal-educado. Hoje, raríssimamente peço desculpas de minhas inúmeras falhas. Prefiro reconhecê-las para mim mesmo, no silêncio da noite. Em 99 por cento dos casos, vão-se tentar prevalecer sobre mim porque me "agachei" e quem se agacha é um desgraçado. É que nem mulher que faz certas coisas - se pedir perdão, é aquilo, e pronto.
Hoje não peço perdão nem desculpa nem excusas. Sou mal-educado e grosso por convicção. Perdoe-me o 1 por cento de nobres. "

Gostaram de lê-lo também? Eu gosto. Pois bem, agora prossigo eu:

A questão para mim é o que vou contar um dia em "A marijuana para um filho", mas talvez consiga aqui adiantar a mensagem de lá. É preciso sim saber viver, mas não posso viver só de sim, sim, sim. É preciso dizer não! Mas isso não se confunde em nada com egoísmo. Quando o não porta um bem maior em si e é dito com amor e respeito, tanto por quem o diz como para quem se diz, esse não traz em si a segurança do entendimento e da compreensão, mesmo que essa última não venha de imediato. O exercício da compaixão não significa dizer sim, quando se deve dizer não. Mas sim ter um amor maior para quem se diz esse verdadeiro não. Esse é o traço da lei justa, da lei necessária.

É mais ou menos como escutava hoje, numa entrevista de um programa infantil, quando se questionava a respeito da educação das crianças através do entrenimento - que tantas vezes traz consigo a vinculação de mais um produto na prateleira do consumismo -, onde a entrevistada (sou péssima para nomes, perdoem-me) fez a seguinte alusão: tudo bem, o que importa é o momento mágico da imaginação da criança, o elo que se passa entre quem conta a história e a criança que a ouve, a assiste. Agora, se os pais forem consumistas, vão ter maiores dificuldades de impor respeito genuíno quando precisarem dizer: não meu filho, você não precisa de mais esse brinquedo. (abro aqui um parênteses para dizer que esse exemplo eu uso para dizer da necessidade do não justo - não estou entrando na seara de repassar culpas de filhos para pais, por uma infinitude de motivos cujas razões virão no momento oportuno). Voltando, eu faço coro à entrevistada: e por isso vamos deixar de contar histórias?

E não só para o Murilo, assim termino: para ser verdadeiramente grande, você precisa estar por baixo. Pois são esses grandes pequenos quem têm a força necessária para sustentar muitos pequenos, que são grandes mas não o sabem. O que não se confude, sobremaneira, com a pequenez da mesquinhez, bricando de asa-delta. Denifitivamente, esses não passam de Ícaros que, enquanto não fizerem as pazes com o melhor de si mesmos, jamais saberão que possuem asas próprias, ora disfarçadas de imaginação. Asas que todos nós temos, mas ainda escondidas na alma de quem não encontrou o jeito certo de trazer o seu melhor dom para o concreto do real, realizando com a liberdade de ser quem se é. E ponto, mas não final... três pontinhos fica melhor, para dizer que estamos sempre caminhando, mesmo diante das pausas necessárias.

Por hoje é isso - idéias meio soltas, sem maiores conclusões, pois o melhor é sempre instigar a continuidade do pensar.

*o muito-obrigado do título foi por adorar riminhas tolas. Deixo aqui, para o Murilo, o meu sempre muito-obrigada! E um beijinho.
** Murilo Paes Leme, amigo, filósofo, professor de inglês, tradutor e escritor nas horas vagas - puro hobby, que é quando a gente faz o que mais gosta. Ah, será que um dia trabalho e hobby andarão de mãos dadas? Pelo sim, pelo não, hobby só faz é bem.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Aprendendo a viver, por Clarice Lispector

Aprendendo a viver
Clarice Lispector

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas “melhore o momento presente”, exclamava. E acrescentava: “Estamos vivos agora”. E comentava com desgosto: “Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar”.

A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na seqüência dos agoras é que você existe.

Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.


Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidadede de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.

Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam – ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalho – ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.

Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber”.

E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem:“Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?”Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrendo meu sangue.

Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Na opinião dele “o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino”.

“Creio”, escreveu, “que devemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos”. E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas – e quem de nós não faz isso? – como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

Clarice Lispector - Jornal do Brasil (dezembro de 1968).

Com todo o respeito à verdade que acredito que esse dito porta, só me resta perguntar: quem de nós, na sua integralidade, faz isso? Ah, os iluminados, alguém poderia me responder... Bem, se você não vai além do que o momento lhe permite, enquanto isso aprenda com o exercício da compaixão e do contentamento por ser quem você é, do melhor jeito que puder ser.

domingo, agosto 21, 2005

A professorinha do Seminário, nos primórdios do Barigüi.

Hoje vou contar a história de uma professorinha, lá por volta dos seus 19 anos, quando a década de cinqüenta dava as boas vindas à de sessenta.

Professorinha nascida no bairro do Seminário e que morava bem ali no seu final, onde acabava o ponto-do-bonde e boa parte do que se concebia à época como os contornos da cidade de Curitiba. Cresceu moleca e cheia de vida, com um brilho no olhar que nem mesmo o passar dos anos conseguiu apagar, dando o tom da avidez peculiar daqueles que lutam em busca da concretude dos sonhos.

Recém-formada, dava algumas aulas particulares além das que ministrava na Estadual D. Pedro II, onde anos mais tarde continuaria a lecionar, já com seus três filhos, que vieram a ser alunos não só dessa escola primária, mas da sabedoria da professorinha.

A segunda proposta de emprego lhe foi oferecida pelo padre da comunidade do Barigüi, naquela época arredores da cidade que já foi conhecida um dia como Nossa Senhora da Luz do Pinhais. E foi ali, numa escolinha voltada para os filhos das gentes mais distantes, que teve o seu primeiro desafio: a pior sala, daquelas que professora nenhuma queria pegar, tal era a desordem e a insubordinação daqueles pestinhas.

A moça bonita chegou no frescor da sua juventude para o seu primeiro dia de aula e assim que entrou na sala a única coisa que pode fazer para conter o medo e a insegurança foi sentar desapercebida na mesa da professora, tamanho era o alvoroço e a algazarra da terrível molecada. Corriam e gritavam com aquela liberdade de criançada solta e sem rédea, comprometida de corpo e alma com a brincadeira da vida.

A única coisa que a professorinha conseguiu fazer por uma boa meia hora, talvez mais, foi ficar ali sentada, cotovelos na mesa, mãos segurando a cabeça, olhos fechados, na tentativa de vislumbrar uma saída para aquela situação que não fosse a porta. E rezava, rogando ajuda a Quem tudo pode.

Permaneceu quietinha, mas com fé, até que no meio da balbúrdia algumas frases começaram a se fazer ouvir: ei, psiu, a professora já está aí! É???? Mas ninguém a viu entrar!? O que será que ela tem? Será que está bem? Seeeenta!!!!

Os alunos foram aos poucos tomando seus lugares, até que algum tempo depois o silêncio tinha dado o ar da sua presença. Foi então que a professorinha levantou a cabeça e muito cordialmente, com um sorriso estampado na face, disse: boa-tarde meus queridos alunos! Tudo bem com vocês? Agora que vocês já se cansaram de brincar, vamos começar?

Foi com esse mesmo tom acolhedor que pediu, depois de se apresentar, que cada um fosse falando de si. Um por um. Ouviu que alguns era filhos de agricultores, outros filhos de pais que brigavam muito entre si. Havia também os que faziam as vezes de pais, cuidando dos irmãos mais novos, para que alguma comida viesse para alimentar o lar.

Enquanto escutava, a professorinha foi percebendo as agruras da vida daquelas crianças, todas muito humildes. Quando terminaram, ouviram a professorinha dizer que eles eram todos muito bonitos. O espanto foi geral: nóóós, booonitos????? Todas as professoras daqui dizem que somos feios, mal-educados, uns pestinhas, que somos um verdadeiro horror!? Respondeu então a professorinha: olhem só para a carinha de vocês, para os traços dos olhos, para o nariz, para o sorriso. Cada um tem a sua beleza particular. Vocês podem não ser bem tratados, mas bonitos são! É mesmo, professora!!!!! A gente pode não ser bem tradado, mas quem disse que a gente não é bonito? Pois é, mas vocês precisam aprender a cuidar de si, a pentear os cabelos, a escovar os dentes e embaixo das unhas, lavar direitinho as orelhas, quando forem tomar banho. São pequenos cuidados de quem se gosta.

Depois desse dia, a sala mais bagunceira do colégio nunca mais foi a mesma. Aprenderam a ser responsáveis pela própria ordem e vinham alguns, mais do que os outros, de orelhas brilhando, de tanto que tinham sido esfregadas embaixo do chuveiro ou em alguma bacia d'água da época.

Foi essa a primeira lição da professorinha, que se repetiria ao longo de seus trinta e cinco anos de magistério. Ela aprendeu ali a tornar os alunos responsáveis pelo silêncio, para que a voz da professora pudesse fazer-se ouvir. E não silenciavam à toa, mas sim para escutar, acima de qualquer coisa, um bem querer explícito, não apenas em palavras mas em gestos, que nem sempre encontravam fora dali.

Os frutos dessa responsabilidade foi sempre motivo de espanto para muitas de suas colegas, que apenas conseguiam impor algum respeito ao som da emeaça de muitas réguas batidas na mesa, quando conferiam por si mesmas que a presença de professorinha não se fazia necessária para que o silêncio da turma continuasse, mesmo quando ela precisava ausentar-se da sala-de-aula.

Mas qual seria o santo do milagre? Bem, sempre contou a professorinha: eu cresci numa casa feliz, sem gritaria. Ninguém gosta disso. Um aluno vai gostar? Aprendi a conversar, a torná-los meus amigos, meus cúmplices. Quando eu precisava de ajuda, pedia. E sempre procurei tratar cada um deles como uma criança singular. Eu, por exemplo, quando era criança, não gostava de fazer lição-de-casa. Criança precisa brincar. Então, se eles me ajudassem e eu terminasse de ensinar a lição do dia, depois do recreio eles podiam fazer a lição-de-casa em sala-de-aula. E eu podia tirar as dúvidas deles, pois sempre achei que muitas mães não podem fazer as vezes da professora em casa. Muitas trabalham, chegam cansadas. Outras, nem sabem como ensinar, pois não foram ensinadas. Os alunos que eram mais espertos, depois que terminassem, podiam ir ajudar e ensinar os demorados ou fraquinhos. Eles adoravam se esforçar para se tornarem meus ajudantes e assim todos queriam aprender. Os mais fracos não eram motivo de zombaria ou menosprezo pelo colega, mas uma oportunidade para que eles pudessem compartilhar o aprendizado.

Foi em meio a essas histórias que cresci, ouvindo-as da professorinha, minha mãe, que foi quem me fez descobrir a letra.

sexta-feira, agosto 19, 2005

O feio recicla o belo. E vice, pois isso versa.

Hoje apenas reproduzo um texto mais antigo, já pedindo pelo desdobramento da sempre necessária atualização, nesse contínuo reciclar que é a vida. O degrau da estagnação tem como função propiciar a contemplação, no caminho em busca de uma serena aceitação das mudanças sempre necessárias para chegar-se a um melhor termo.



Festerê - festa no apê!?


Hoje eu estava lá no Mosteiro São Bento, arredores de Brasília. Mas não sou Carola, sou Claudinha... É que gosto de quebrar a rotina do dia na hora do almoço. Como interrompi esse mês a academia, que me custa algo em torno de 343 reais por mês, pensei num lugar onde pudesse ficar em paz e tranquila. E lá fui eu, pegar um solzinho, olhar o horizonte, escutar o silêncio.

Nas duas vezes em que estive lá, fui sozinha mas voltei acompanhada. Tudo culpa do padre, que está viajando...

Na primeira vez foram dois rapazes. Um empurrando o outro na cadeira-de-rodas. Josimar era tetraplégico, depois conseguiu recuperar parcialmente os movimentos do tronco, braços e mãos, mas acaba que nunca sai sozinho de casa. Puxei conversa depois que perguntei se o amigo precisava de ajuda para fazer a cadeira subir uma escadinha. Respondeu que não, que tava acostumado. Quando eu estava indo embora, no meio da rua comprida e solitária, avistei do carro os dois rapazes. Um na frente e o outro atrás, empurrando o amigo. Passei, lá na frente parei e voltei. Perguntei: querem carona? Já dentro do carro, contou-me o Josimar que tinha ido lá pedir uma sonda. Usa uma garrafa plástica de coca-cola pequena, no improviso. Ganha 300 reais por mês e cuida de dois filhos, depois que se acertou com a mulher e resolveram em conjunto que ela podia ir embora cuidar da vida dela, pois antes mesmo do acidente já era dessas mulheres avessas à fidelidade a quem não se ama de verdade. Disse-me que os filhos são seus maiores tesouros. Que é muito feliz, que tem esperança que daqui a uns 10 anos, com as células-tronco, vai voltar a andar. Falou que adorava os tempos em que passou no Sara Kubitschek e que o Jonathan, um rapaz bonitão que está fazendo propaganda na televisão para a inclusão social de pessoas com necessidades especiais, era o predileto das enfermeiras: todas elas queriam dar banho no Jonathan... fora o telefone que não parava de tocar e os milhares de bilhetinhos que o bonitão recebia. Mania dessas enfermeiras dizerem que homem bonito não dá trabalho... Enfim, o Josimar, se não fossem os filhos, disse que não precisava de mais que 300 reais por mês prá viver. Quando me despedi e olhei seu sorriso estampado no rosto, não tive dúvida alguma disso.

Já o seu Marcos, hoje, estava ali dentro da Igreja do Mosteiro, deitado, olhando para sei lá onde. Quando eu fui embora, ele perguntou se eu tinha dinheiro para ele pegar o ônibus de volta para casa. É que o padre, que da última vez arranjou-lhe uma cesta básica, tava viajando... Seu Marcos, nem um real eu tenho na bolsa. A única coisa que posso oferecer é carona. Aceita? Tá...respondeu ele. Seu Marcos é mais calado, olhar triste, perdido no horizonte... Lá em Formosinha, arredores de Brasília, onde mora com seus sete filhos, está difícil de arranjar emprego como 'prestador de serviços'. As fazendas de colheitas estão todas lotadas, não há vagas. Na casa dele, só tem sal. O gás acabou e ontem foi catar um pouco de lenha para acender o fogo. Ô seu Marcos, o senhor tem que acreditar que pode mudar. Arrumar emprego não depende só do senhor, mas o governo, agora com o 'Fome Zero', garante que Fome o senhor não pode passar. É...respondeu ele. Durante o caminho de volta, depois que passei no banco para dar-lhe um pouquinho de esperança, insistir que ele tinha que se ajudar antes de tudo, conversa vai, conversa vem, fui percebendo que a vergonha ía perdendo o jeito. Tanto que quando desceu do carro, recebi do seu Marcos um sorriso branco largo e iluminado, que branco quando contrasta com a morenice da pele fica é mais bonito.

Depois que deixei o seu Marcos para pegar o ônibus de volta para casa, acabei concordando com um amigo quando contestou a minha idéia de que o governo deveria ser proibido de fazer propaganda publicitária. Ele tem razão: o governo precisa divulgar os seus serviços. Assim que cheguei no trabalho entrei no site do governo, mas não consegui achar informações claras e precisas de como proceder para receber o auxílio do 'Fome Zero'. E no 0800, cansei de ouvir a musiquinha tocar. Mandei email perguntando como é que se faz. Pelo computador, lógico! Depois vim a descobrir que no programa fome zero você se cadastra para receber o auxílio bolsa família: 100 real. Se você vai ler com 'c' ou com 's', é pela escolha de quem chegou a esse básico discernimento da letra.

Enquanto isso, pensava no Prêmio Colunistas do Ano, que vai acontecer hoje lá no hotelzinho que sediou uma festa assombrosa, digna da elite da elite, que aconteceu semana atrás aqui no planalto central e ficou conhecida como Federal Weekend. Festa de arromba. E de roubo, já que não tinha convite por menos de algo em torno de 400 reais o mais xinfrim! Mas o que se ouviu mesmo falar é que estava assim de gente chegando de helicóptero, depois de desembolsar algo em torno de 22 mil reais para o fim-de-semana. Escutei também sobre outros pequenos delitos, tudo por culpa da inusitada operação policial que foi atrás dos consumidores de substâncias entorpecentes de uso proibido. Alguns frascos de lança-perfume, um pouco de maconha e apenas uma ‘bala’, diminutivo de baladas movidas a ecstasy... as outras balas, se rolaram, acho que deram o sabor de doçura da festa, repleta de gente muito bonita. Bonita como vai ser a festa de hoje, quando serão premiadas a agência do Marcos Valério e uma propaganda feita para os Correios. Essa, uma oportunidade única para reflexão: todo mundo gosta de coisa bonita, sai prá lá coisa feia! Só que a beleza depende muito dos olhos de quem vê. É... responderia o seu Marcos.

Bsb, 7.7.2005.

Nota explicativa: O jogo de nomes (Marco), para os que não estão inteirados da atual conjuntura política Brasileira, faz alusão ao nome de um famoso publicitário, acusado de estar envolvido com o que se costuma chamar por 'lavagem de dinheiro', cujo escândalo está conectado, infelizmente, com a propaganda feita para a Empresa Brasileira de Correios. Todos os nomes e fatos que inspiraram esse texto estão conectados com a realidade. Ou seja: isso não é obra de ficção científica e qualquer semelhança com a realidade não é ilusóira.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Rapidamente, Subitamente e Indistinção, by Tchuang-tse.

"O soberado no mar do Sul chamava-se Rapidamente; o soberano do mar do Norte chamava-se Subitamente; o soberano do Centro chamava-se Indistinção. Um dia, Rapidamente e Subitamente se encontraram na terra de Indistinção, que os tratou com muita benevolência. Rapidamente e Subitamente quiseram recompensar essa hospitalidade e disseram um para o outro: 'O homem tem sete orifícios para ver, ouvir, comer, respirar. Indistinção tem nenhum! Vamos furá-lo? Pondo mãos à obra, fizeram um orifício por dia. No sétimo dia, Indistinção morreu."

quarta-feira, agosto 17, 2005

I wanna give you some love.

Juro que, se eu pudesse, me experimentava num modelinho rasta. Fazendo trancinhas no cabelo, talvez dread. Mas acho que trancinhas eu ía amar ver qualera....Já pensou? O tributo, junto com a música lá embaixo, à beleza da raça, virá em seu tempo oportuno.

To save Africa from being apart of the consuming world playing game is our responsability. Oh, yes!

Turn Your Lights Down Low
Bob Marley, na voz de Lauren Hill.


Turn your lights down low
And pull your window curtains;
Oh, let Jah moon come shining in –
Into our life again,
Sayin': ooh, it's been a long, long
(long, long, long, long)time;
I kept this message for you, boy,
But it seems I was never on time;
Still I wanna get through to you, boy,
On time - on time.

I want to give you some love
(good, good lovin');
I want to give you some good, good lovin'
(good, good lovin').
Oh, I - oh, I - oh, I,Say,
I want to give you some good, good lovin'
(good, goodlovin'):

Turn your lights down low;
Never try to resist, oh no! ,
let my love come tumbling in –
Into our life again,
Sayin': ooh, I love ya!

And I want you to know right now,
I love ya!
And I want you to know right now,'
Cause I - that I -
I want to give you some love, oh-ooh!
I want to give you some good, good lovin';
Oh, I - I want to give you some love;
Sayin': I want to give you some good, good lovin':

Turn your lights down low, wo-oh!
Never - never try to resist, oh no!
Ooh, let my love - ooh,
let my love come tumbling in –
Into our life again.
Oh, I want to give you some good, good lovin'
(good, goodlovin').

Seguido de um rap...

terça-feira, agosto 16, 2005

No porvir, estão por vir:

- A majiruana para um filho.
- Uma pena por amor? Que pena... a tua alma não é pequena!
- Onde eu odeio, eu não me amo.
- Eu já não suportei a palavra holística. Hoje, sou mística!?
- O que repete?
- O nariz de das Fliess, para o horror de Freud.
- Shushumna, inda e pingala.
- Assim como é em cima, é embaixo. Dois cérebros?
- No princípio está o fim e vice-versa. E chega de conversa?
- A sempre santíssima trindade.
- Limiar da loucura. Os frutos de uma filosofia estéril?
- Mãos à obra.
- O selo da carta de um comunista para um consumista.

A conexão da comunicação.







Bem, se o Murilo lê ou não o que escrevo aqui eu não sei. Mas que continua sempre a me auxiliar e instigar com a peculiar postura dos céticos agnósticos - que tanto adoro, creiam-me mas sem me perguntar o porquê-, isso é inquestionável.

Por hora, uma breve transcrição de um artigo de autoria de um Phd, Dr. Stanley Krippner,* que dá um baile nas minhas pinceladas empíricas mas de coração sincero, que é de onde brotam as nossas mais profundas verdardes. De olhos bem abertos!

Ah, e qualquer semelhança entre orkut, internet, parabólicas, Jornadas nas estrelas - a trilogia entre Capitão Kirk, Spock e o Dr.??? (esqueci o nome) e a profetizada recém-descoberta astronomicamente astrológica de Quíron, é loucura, loucura, loucura! Absolutamente irracional.

"Conexão e Comunicação"

"Pelo fato de as teorias da complexidade serem transdisciplinares, podem ajudar a tornar compreensível a intricada dinâmica da mudança bio-psico-sócio-cultural humana. Sem reduzir o estudo da psique à física, essas abordagens oferecem poderosas ferramentas conceptuais utilizáveis para se trabalhar no sentido de um entendimento unificado das dimensões cognitiva e afetiva das ordens humana, social e natural do cosmos (Laszlo & Krippner, 1998, p. 30). Visto que um "sistema" complexo pode ser visto como um padrão de componentes em interação, tanto a "mente" quanto a "matéria" podem interagir numa dança não-dualística que lembra o conceito taoísta de yin/yang. Há sempre um pouquinho de yang em todo yin, e um pouquinho de yin em todo yang; nenhum deles é primário e ambos são necessários um ao outro e ao todo. Novas propriedades podem surgir de um sistema, mas permanecem sendo parte de uma unidade indivisível.

Esse insight motivou J.L. Randall (1975) a propor que o pensamento de sistemas pode levar em conta fenômenos parapsicológicos mais facilmente do que uma abordagem ou mecanicista ou dualista. Foi também proposta uma abordagem de sistemas complexos como maneira útil de estudar os "potenciais transcendentais da psique... em vários níveis de complexidade," como revelados na meditação, ioga, e diversos estados alterados (Krippner, Ruttenber, Engelman, & Granger, 1985, p. 111-112). Usando insights da teoria do caos, Christine Hardy (1998) leva em conta fenômenos parapsicológicos em seu conceito de "campos de consciência," substituindo noções clássicas de "tempo" e "espaço" por constructos tais como "proximidade semântica, intensidade, e coerência" (P. 194). Essas "redes de significado" não apenas estabelecem uma ponte entre "mente" e "matéria" como permitem um modo novo de compreender tais sistemas complexos como "campos de consciência."

Desde seu nascimento em meados do século 20, a teoria dos sistemas manteve que o todo é mais do que a soma das partes. Décadas mais recentes acrescentaram a dimensão da complexidade, dando origem à teoria dos sistemas complexos e oferecendo a compreensão de que o todo é também diferente da soma de suas partes. Enquanto isso, os teóricos do caos falam de "bifurcações", ou transições, não lineares e frequentemente indeterminadas entre estados do sistema. Tais bifurcações podem refletir transformações revolucionárias no desenvolvimento de indivíduos e sociedades. Centros de mudança de poder, os padrões ordenados são subvertidos, e o caos da transformação dá lugar a novas eras de relativa estabilidade. Essas eras podem demandar a criação de mapas cognitivo-afetivos novos e mais apropriados, bem como de mitos pessoais e culturais revisados -- em outras palavras, novas maneiras de ser. O campo do "projeto de sistemas evolutivos" é um campo rigoroso, criador do futuro, auto-regulador, de investigação e de ação (por exemplo, Banathy, 1996). As bifurcações têm o potencial de se tornarem emancipatórias na medida em que surgem novos mapas e mitos que oferecem melhor entrosamento entre as novas realidades em surgimento dos indivíduos e de suas sociedades. Entretanto, esse resultado depende do grau de escolha possível, e da determinação das pessoas de projetar seus próprios futuros. A liberdade é um dos resultados em potencial, mas outro é o autoritarismo em todas as suas formas (por exemplo, cultismo, fascismo). Por ter gerado hipóteses que podem ser testadas pelos empíricos, o paradigma da auto-regulação pôde ser levado a sério por indivíduos e grupos influentes que são "atores" de peso em ciência, tecnologia, academia, a mídia, e até na política. O paradigma da auto-organização evita rótulos desgastados como "mente" e "matéria," mas respeita visões do mundo não lineares tais como as dos povos indígenas e a filosofia oriental. Desqualifica a categorização semântica das pessoas de acordo com sua "raça," "etnia," e "religião," os clichês que respondem pela maioria das três dúzias de conflitos armados e sangrentos que estavam tendo lugar no início do século XXI. Nas mãos de líderes sábios, e com a ajuda dos "atores influentes" da boa vontade, esse paradigma holístico poderá abrigar um potencial de ajudar a espécie humana a re-visar-se de maneira que assegure a própria sobrevivência. Diante da alternativa, vale mais do que a pena considerar esta possibilidade."

"All Mind? No Matter": The Self-Regulation Paradigm Stanley Krippner, Ph.D. Saybrook Graduate School and Research Center.


Quando resolvi transcrever esse artigo, jamais poderia imaginar que teria o prazer de conhecer o seu autor pessoalmente e registrar esse momento. Fotos anexas tiradas em Curitiba, abril de 2006, onde também se vê, na primeira, da direita para a esquerda Christine Hardy, citada no texto, Steven Pritzker, eu, Stanley Krippner, Stefan J. Kasian e Jalmir Brelaz de Castro. Na segunda, eu com Stanley e Stefan.

Possuir um ideal ou ser possuído por ele?

Hoje, trago um texto de Annie Besant, retirado de "Os Ideais da Teosofia", tradução de Fernando Pessoa, Ed. Teosófica. Sem conclusões, mas como sempre para reflexões. E, se me acompanhar, leia com a ótica da distinção do divisor de águas do traço da lei, seja a pessoal ou a social, tendo o seguinte conceito em mente: o sintoma sempre será o mesmo, mas antes da lei pessoal ele é o algoz do sujeito e depois dela o traço brilhante de sua personalidade. Por isso não duvide que a lei legítima proibe, mas é para libertar! E, por favor, excluída qualquer vertente redutiva ou impositiva. Sou avessa ao totalitarismo, excluída uma única possibilidade. A explicação é coisa para bem lá adiante, mas só na teoria, assim espero.

"Para haver um ideal é preciso haver mais alguma coisa do que uma idéia. O ponto seguinte, portanto, na definição, é que Ideal é uma idéia fixa, não um pensamento passageiro. É uma idéia que não muda, que não varia, que é fixa e estável, que exerce uma forte influência sobre o espírito. Eis, pois, a segunda parte da definição da palavra Ideal: um Ideal é uma idéia fixa.

Mas, além disso, um Ideal é uma idéia construtiva, uma idéia vitalizadora, e que, portanto, tem um efeito sobre o caráter. Um Ideal é uma idéia, não morta, mas viva, exercendo uma forte influência sobre a vida. De sorte que chegamos a conceber um Ideal como sendo uma idéia ou um conceito caracterizado pela fixidez e pelo seu poder construtivo do caráter.

Temos, porém, ainda um pouco a acrescentar à nossa definição, antes que percebamos totalmente o que um Ideal significa. Uma idéia falsa pode ser fixa – uma idéia fixa que não está em harmonia com os fatos e com a natureza das coisas. Uma destas idéias fixas produz o maníaco, mas não o Herói ou o Santo. De modo que temos que acrescentar um adjetivo a essa palavra “idéia” Tem de ser uma idéia verdadeira, uma idéia justa, uma idéia que esteja em harmonia com os fatos e de acordo com a verdade.

Uma idéia fixa, tal qual os psicólogos a conhecem, tem características. Já disse que ela pode produzir um maníaco; porque é característico de uma idéia fixa, no sentido vulgar da expressão, que ela domina o espírito e exclui as influências que se lhe opõem. É quase inútil argumentar contra ela. As influências usuais da vida, que atuam sobre o espírito humano, recuam ao bater de encontro à idéia fixa, do mesmo modo que as ondas recuam, quebradas ao bater de encontro a um rochedo. Por isso uma idéia destas pode ser um perigo e não um auxílio, um mal e não um bem. Mas, mesmo quando a idéia fixa seja boa e verdadeira, mais alguma coisa é preciso para que ela seja realmente um Ideal Teosófico. A idéia que é boa e verdadeira produz o Herói e produz o Santo; mas aquela que torna um homem um servidor útil da humanidade é uma idéia fixa que é boa e verdadeira, mas que ela possui, e não ela a ele. Não há aqui uma mera sutileza ou simples jogo de palavras. Há uma profunda diferença,na evolução entre uma idéia fixa dominar um indivíduo, e um indivíduo dominar uma idéia fixa. Lembram-se decerto, de que Patanjali, no seu Yoga Sutras, ao traçar os estágios da evolução intelectual, observa que o homem que está possuído por uma idéia fixa está perto da porta do Ioga. Sim: isto é verdade. É um sinal de evolução acima do vulgar, isto de uma idéia que seja uma inspiração nobre e verdadeira, possuir um homem a tal ponto que nenhum dos usuais argumentos mundanos pode fazer com que ele abandone a sua atitude; mas é sinal de uma evolução ainda mais alta quando a idéia nobre é possuída por ele como um instrumento, e não o possui como um dono. Uma idéia deve ser serva do espírito, a fim de dominar a natureza inferior e coagi-la ao serviço da superior. Por isso Patanjali sabiamente traça a distinção, e aponta que a idéia fixa possuindo um indivíduo o traz para perto da porta do Caminho; mas que é só quando o indivíduo possui a idéia e não é possuído por ela que os seus pés podem transpor o limiar dessa porta.

Um Ideal é, pois, uma idéia fixa, justa ou verdadeira possuída pelo indivíduo, e a tal ponto viva que influencia o seu caráter. Este último ponto não deve nunca ser esquecido. Porque um Ideal que não vivemos torna-se um ídolo, e muitas vezes resulta ser um obstáculo em vez de um auxílio. Formar o caráter, inspirar o coração, iluminar o espírito, eis o valor de um Ideal. Temos que meditar num Ideal desses para que o possamos reproduzir dentro de nós. Porque o homem, com diz o Upanishad, é criado pelo pensamento e torna-se aquilo em que mais pensa. O pensamento forma o caráter, e a vida torna o pensamento fértil.”

segunda-feira, agosto 15, 2005

Janela d'alma.








Ontem foi um dia dessas felizes sincronias da vida. Já na cama, deu uma vontade de assistir a um clip, antes de me entregar ao sonhos. E qual não foi a minha surpresa, quando me deparei com um documentário que deixei passar no cinema e nunca encontrei em locadora: Janela d'alma, mostrado por um programa televisivo chamado Cadernos de Cinema.

Quero aqui trazer um pouco das impressões. Ligeiras, pois se pudesse reproduziria a sua íntegra.

Registrar a necessidade do equilíbrio entre o VERBO e a IMAGEM, que se desconectada por algum transtorno traumático pode gerar a Síndrome de Capgras, quando o sujeito reconhece a imagem da pessoa vista, porém dissociada da percepção de sua representação afetiva, passando a crer que vê impostores.

Lembrar do depoimento do velhinho de longos cabelos brancos, cujos olhos nunca se fixam em lugar algum, dizendo que não sabe como as pessoas o vêem, mas sabe como as vê, terminando por concluir: na verdade, os olhos são a entrada das percepções, mas enxergamos pelo terceiro olho. Do mesmo jeito que os sons entram pelos dois ouvidos, mas a escuta se opera na nuca. Você nunca reparou que quando a gente escuta com atenção, costuma abaixar a cabeça? Bem, digo eu, lembrando do costume milenar japonês de se expressar abaixando a cabeça... seria para melhor te escutar, lobo-mau?

E confessar que ontem e hoje não consegui meditar e me dei conta do porquê: meus olhos piscavam, mesmo de pálpebras fechadas. Ou seja, a minha concentração num ponto se interrompia constantemente por esse piscar do fluxo de convergência.

domingo, agosto 14, 2005

Esse nome...

O blog já nasceu, mas o nome tem horas que me parece muito pesado. Estou refletindo profundamente sobre mudá-lo para sanidade banida. Nada contra o bandida, mas preciso deixar muito claro que como alguém que tem o direito na lida diária, o que me interessa é caminhar sempre em busca do justo, do coerente, da ética. O grande X da questão ética é a diferença entre a ética pessoal (no sentido sexual, como identificação de uma pessoa como sujeito singular) e a ética social. Sanidade bandida foi pelo simples fato de que quero falar sobre dois lados da mesma moeda. Sanidade bandida é a contra-mãe de insanidade legal. Entre o legal e o ilegal sempre estará em jogo o mesmo conceito, sobre o mesmo fato. E prá mistificar a parada, a saída será sempre dada pelo terceiro olho, pelo terceiro ponto de vista.

sábado, agosto 13, 2005

Redemption Song

Ainda escrevo algo sobre essa música. Fica no aguardo, mas ela me faz feliz demais da conta! Ainda mais vendo ela cantada no show Tributo a Bob Marley.


Redemption Song

Bob Marley

Composição: Desconhecido

Old pirates, yes, they rob I;
Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottom less pit.
But my hand was made strong
By the hand of the Almighty.
We forward in this generation
Triumphantly.
Won't you help to sing
these songs of freedom
'Cause all I ever have:
Redemption songs
Redemption songs
Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our minds.
Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look
Oh! Some say it's just a part of it:
We've got to fulfill de book.
Won't you help to sing
these songs of freedom
'Cause all I ever have:
Redemption songs
Redemption songs
Redemption songs
(Guitar break)
Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our mind.
Wo! Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them-a can-a stop-a-the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look?
Yes, some say it's just a part of it:
We've got to fulfill the book.
Won't you help to sing
These songs of freedom? -
'Cause all I ever had:
Redemption songs -
All I ever had:

Redemption songs:
These songs of freedom,
Songs of freedom.



Redemption Songs (tradução)

Bob Marley

Composição: Bob Marley

Velhos piratas, sim eles me roubaram, me
Venderam para navios mercantes,
Minutos depois eles me jogaram no porão mas
minhas mãos foram fortalecidas pelas mãos
do todo poderoso, nós avançamos
triunfantemente nessa geração,

Tudo o que eu sempre tive foram canções de
liberdade,
voce não irá ajudar-me a cantar essas
canções de liberdade?, porque tudo o que eu
sempre tive foram canções de liberdade,
canções de redenção.

Liberte-se da escravidão mental, ninguém
além de você pode libertar sua mente, não
tenha medo da energia atômica, porque eles
não podem parar o tempo, por quanto tempo
vão matar nossos profetas, enquanto nós
permaneceremos de lado olhando.
Sim, alguns dizem que é apenas uma parte
nós temos que cumprir o livro.

Você não ira ajudar-me acantar essas canções
de liberdade?, porque tudo o que eu sempre
tive foram canções de redenção.Tudo o que
eu sempre tive foram canções de redenção
essas canções de liberdade, canções de
liberdade.

Africa? Dê uma olhadinha em: http://sleeplessinsudan.blogspot.com/

sexta-feira, agosto 12, 2005

O piscar - o ponto de interrupção da percepção.




Eu quis trazer aqui a primeira imagem desse blog. A recebi por email, com o título ilusão de ótica. Bolinhas cor-de-rosa, girando em torno de um ponto fixo, representado pela cruz. As instruções eram claras e estupefadas: olhe no ponto fixo e as bolinhas ao redor sumirão do seu campo de visão! Se a pudesse reproduzir aqui, vocês veriam, com seus próprios olhos, a verdade da assertiva. Mas posso sim, reproduzir o dito:

"... se você estiver vendo bolinhas cor de rosa ... cuidado !!! Pare de sonhar , pois você está muito louco. Foque seu olhar somente na cruz existente, e verá que as bolinhas são coisas da sua cabeça !!!"

Quando quis trazer a figura para cá, deparei-me com a pouca lida nessa seara cibernética. Pedi auxílio, mas meus consultores também não souberam dizer como fazer para trazer a imagem fidedigna, sem transmudá-la. O ponto fixo da cruz, com o círculo giratório de bolinhas rosa ao redor. O querido Murilo, que aliás foi quem me enviou a tal da ilusão, assim me respondeu:

"Infelizmente não sei. Recebi assim, não fui eu quem criou ou estruturou a figura. Sorry."

Eu, assim que pude, retruquei:

"Imaginação é o que não me falta, baby." E lá veio ele, como sempre promissor: "Que bom, sorte a sua. Imaginação ajuda em tudo, em tudo..."

A imaginação sequer se deu ao charme da demora. Atravessou-me quase que de imediato, também por obra dos amigos Marcia e Mariano. Na verdade, a Marcia só vi uma vez, mas também amiga, por que não? Ela é muito amiga do Mariano, esse sim um querido amigo fresco. Fresco, de novinho; fresco, para combinar com o seu peculiar senso de humor, dado a incessantes tiradas engraçadinhas. Pois bem, aconselhava-me a Marcia, reportando-se ao Mariano, que sempre diz: não pisque! Se piscar, dançou.

E não é exatamente isso que aconteceu aqui? A imagem piscou. Piscou, porque se você a observar ela dá uma pausa intermitente, impedindo a cruz de ficar fixa. Com isso, a brincadeira da ilusão de ótica se perdeu. A gente não consegue mais ver desaparecer as bolinhas cor-de-rosa ao redor do ponto fixo.

Então tá: qualquer semelhança com práticas meditativas, aura e coisa e tal, é pura ficção, ilusão, loucura, loucura!!! Aos nossos olhos, que piscam. Focados ou desfocados? Sejam bem-vindos aos questionamentos da racionalidade.

Sanidade Bandida, uma nota explicativa.

Numa colocação hoje expressa, preciso explicar uma premissa imprescindível: as percepções da descontrução da lei não têm outro objetivo que respaldá-la. Anarquismo, como sinônimo de total liberdade, para abdicar do legal e ser legítimo, pressupõe uma condição egóica que ultrapasse a atual concepção do desejo e de como nos abordamos - nós, sujeitinhos, dentro da visão filosófica ocidental. Em breve, trarei essas nuances ao falar de Auroville, uma cidade tida como patrimônio da humanidade, protegida pela UNESCO.

"Um lugar onde nenhuma nação poderá ser dona... um lugar onde as necessidades do espírito e a preocupação com o progresso tem prioridade em relação à satisfação dos desejos e paixões pessoais", palavras da mãe, ao batizar o fruto da concepção com seu companheiro d'alma, o pai, que recebeu o nome de Auroville, inagurada em 28.2.1968, localizada a 10 km ao norte de Pondicherry, Índia.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Ilusão e Lucidez



Falava ontem sobre não querer se submeter à lei, em homenagem à lucidez singular. Pois bem: o traço, aqui, penso que pode ser relativo, sob uma ótica simples: a da própria ótica. A lucidez que penso proteger a tudo o custo, como o meu mais precioso bem, pode ser um apego temerário à ilusão. Uma ilusão que aprisiona, afugentando uma lucidez libertadora. A lucidez depende muito do quanto a minha visão alcança.

Portanto, preste sempre muita atenção num segundo pois bem: a voz da sabedoria. Mas é preciso saber escutar, pois na verdade nos acostumamos escutar só o que queremos, o que suportamos ouvir. Como já disse um sábio, chamado Jacques, a voz vem do outro, invertida. Num dizer simplinho, só escuto a minha própria voz, na fala do outro. De todo o resto, a gente se protege discordando. Ou mesmo sequer ouvindo a verdade do insuportável. O que colocamos sob o vulgo clichê da chatisse, pode ser um psiu para manter-se adormecido.
Acorda, que o melhor é sempre um acordo, de coração para coração.

Os sons mais seguros, no começo dessa caminhada, você encontrará na espontaneidade das crianças. E, depois, escutando quem já viveu, ao menos, uns bons quarenta anos além de você. Quarenta anos, significando o lapso temporal suficiente para a resposta da terceira geração, aos conflitos inerentes entre a primeira e a segunda. Num segundo dizer simplinho, os avós geralmente resgatam as eventuais culpas em relação aos filhos (não importa se certas ou erradas), nos netos. É o silogismo trazido para o trato social, transmitindo a cultura singular do laço familiar. Essa, porém, é apenas uma das faces da moeda da voz sabedoria. A outra face é a sintonia com a ressonância da voz do seu coração, uníssona com a da sua razão. Se houver medos, não se sinta covarde, mas prudente, por fidelidade a você mesmo. O que não se confunde com covardia, que é estar longe do seu coração. Lembre-se: você será sempre o responsável por cada passo que der na vida.

Fique, agora, com Fernando Pessoa. Uma Pessoa, assim como você.


Anarquismo
(Fernando Pessoa)

A noite e o caos fazem parte de mim.
Volto-me até o silêncio das estrelas.
Sou o efeito de uma causa do tempo,

do Universo (quiçá o exceda).
Para encontrar-me, devo buscar-me entre as flores,
os pássaros, os campos e as cidades,
nos atos, nas palavras e nos pensamentos dos homens,
na noite de sol e nas ruínas esquecidas de mundos desaparecidos.
Quanto mais cresço, menos sou.
Quanto mais me encontro, mais me perco.
Quanto mais me provo, mais vejo
que sou flor e pássaro e estrela e universo.
Quanto mais me defino, menos limites tenho.
Os transbordo todos.
No fundo sou o mesmo que Deus.
Minha presença atual contém as idades anteriores à vida,
os tempos mais velhos da terra,
os ocos do espaço antes que o mundo fosse.

terça-feira, agosto 09, 2005

O traço da lei.

Muito bonitinho escrever sobre o dever-ser. Mas o que eu faço com o meu ser, quando ele não quer esse dever? Um dever que soa como uma ordem ingrata à minha lucidez, porém bandida e fora-da-lei. Achou que ía ser fácil assim comer esse bem-querer?

Então vem.

Vem, porque aqui você pode falar sobre o que move o mundo. Da sua força propulsora, o sexo. Como dizem alguns, no fim das contas a gente só fala é disso mesmo. Mas não me venha com pornografias banais. Guarde-as para o seu próprio confessionário e lá perdoe-se de todas as culpas. No dia em que você fizer as pazes com a sua própria natureza, entenderá que não há vergonhas. É compreendendo o seu certo, que você poderá trilhar menos errado. É contentando-se com a sua falta, enfrentando o seu pior, que o seu melhor se exercerá. Eis aqui a sua Sanidade Bandida. Sim, pois eu sei da grande lucidez desses momentos de entrega ao que há de mais verdadeiro em você mesmo. Portanto, não se descarte, não se prive, não se tolha. Aceite-se e, a partir daí sim: transforme o lado obscuro da sua culpa no brilho resplandescente da sua personalidade. Aquele traço único, que o distingue de todo o mais e é só seu. Compartilhe-o então e dê a sua contribuição para fazer desse mundo algo melhor. E por hora, para terminar, a prudência me pede para ressalvar: ninguém sairá impune das conseqüências de seus atos. Felizes são aqueles que alcançaram a liberdade de escolher qual o fruto desejam comer.