No ano passado, brinquei com a foto de uma querida amiga, que retratou um bitura, rodopiando ao som do invisível... Era uma sexta-feira, mas não treze, como a da semana passada. Dia em que brilhou a estrela de um bilionário no Brasil, de nome Eike Batista, capa da Revista Veja dessa semana. Em breves folheadas, chamou-me a atenção a forma como se referiram ao mais novo fenômeno da economia nacional:
"O Mr. X da bolsa", por Ronaldo França e Ronaldo Soares.
"Aos 51 anos, bilionário e bon vivant, Eike Batista faz a maior oferta de ações da história e se torna expoente da modernidade na economia brasileira.
O empresário Eike Batista é conhecido por suas superstições. Entre outras esquisitices, todas as suas empresas têm o nome terminado com a letra X, símbolo da multiplicação, e todas as cifras de suas transações comerciais têm de conter a dezena 63, porque era esse o número de seu barco quando foi campeão mundial em corrida de lancha. Agora, Eike tem bons motivos para considerar que o 13 é seu novo número da sorte. Na sexta-feira, a oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) de sua empresa petrolífera, a OGX, captou 4 bilhões de dólares. É a maior operação desse tipo já feita no país. No fim do dia, as ações fecharam com alta de 8,3%, tendo elevado o valor de sua empresa ao patamar de 23,6 bilhões de dólares, dos quais 60%, ou 14 bilhões, são seus – uma montanha de dinheiro que vai se somar aos outros 6,6 bilhões de dólares de seu patrimônio, segundo a revista Forbes. A operação surpreende pelo valor, mas sua singularidade tem outro motivo: a empresa que tanto atraiu os investidores tem apenas um ano de existência e nenhuma reserva de petróleo provada. Em um só dia, Eike criou uma companhia petrolífera com quase 7% do valor de mercado da Petrobras, empresa com mais de cinqüenta anos de história, que produz 1.918 barris de petróleo por dia e dispõe da mais refinada tecnologia de extração em águas profundas".
O sucesso de Eike deriva de uma confluência de fatores objetivos extremamente favoráveis: a obtenção do grau de investimento pelo Brasil, a alta do petróleo no mercado internacional e a enorme expectativa de prosperidade proporcionada pela nova fronteira de exploração, na camada do pré-sal que se estende pela costa brasileira. Tudo isso forma o cenário definido por um experiente analista do mercado de capitais como "alinhamento dos astros". Graças a esse alinhamento e a uma eficiente capacidade de contratar as pessoas certas, Eike manteve o rumo nos momentos ruins e disparou nos bons. Isso não explica completamente o sucesso alcançado pela OGX. Para compreender o que se passou na Bovespa na sexta-feira, é preciso levar em conta um fator subjetivo, que vem sendo chamado de "efeito Eike".
O que é o efeito Eike? É o vórtice produzido em torno dos grandes movimentos do empresário. Se ele compra participação em uma empresa, as ações passam a ser acompanhadas mais de perto. Se é ele que está à frente da operação, como na semana passada, os grandes investidores se interessam. No volátil mundo das bolsas de valores, Eike virou uma espécie de biruta. Fique claro: trata-se do instrumento que ajuda os navegadores a saber a direção do vento, porque de maluco ele não tem nada. Aos 51 anos, tornou-se o símbolo do novo empreendedor brasileiro. Ele é a cara do capitalismo que começa a se instalar no país, no qual o empreendedorismo se sustenta no mercado de capitais, e não nas benesses estatais. Um ambiente em que o Brasil se afirma como país inserido na economia mundial, confiável aos olhos de investidores estrangeiros, onde os negócios produzem riqueza para empresários e mais ainda para os investidores, que podem ser tanto os grandes fundos quanto as donas-de-casa brasileiras. (...)
Eike ganhou respeito também por outro episódio singular. Quando abriu o capital da MPX, sua empresa de energia, as ações caíram abruptamente, puxadas pela crise das hipotecas nos Estados Unidos. Para reduzir a perda dos que apostaram na empresa, transferiu para a MPX as ações que tinha em duas termelétricas. Na prática, entregou cerca de 1 bilhão de dólares a título de compensação a quem confiou nele. Ganhou o coração dos banqueiros – se é que banqueiro tem coração. Não há notícia, no mundo inteiro, de uma reparação aos investidores dessa magnitude. O que explica decisões como essa, que assustou até mesmo o board de sua holding, a EBX, é a crença em uma forma de fazer negócios que não é muito popular por aqui. Aos amigos, gosta de dizer que, enquanto o governo se preocupa em distribuir a riqueza aos mais pobres, ele a distribui aos ricos. Para ganhar seu primeiro bilhão de dólares, entre 1980 e 2002, repartiu em forma de dividendos outros 24 bilhões. Fez isso remunerando acionistas e oferecendo bônus monumentais a seus parceiros comerciais, categoria na qual inclui seus funcionários. Ficou conhecido no mercado o contrato com o ex-presidente da BR Distribuidora Rodolfo Landim. Eike o levou para sua empresa graças a um pacote de remuneração que pode chegar a 44 milhões de reais, de acordo com as metas de desempenho. É com essa voracidade pelos melhores talentos que tem abocanhado nacos inteiros de equipes de suas principais concorrentes, incluindo Petrobras e Vale".
Para ler repostagem na íntegra, acesse o endereço: http://veja.abril.com.br/180608/p_094.shtml
E para me despedir, nessa sexta-feira, meus sinceros desejos de que possamos tirar boas lições sobre como ser, nesse mundo cada vez mais sem eira, nem beira, birutas, mas com eixo, para sinalizar os bons ventos a quem nos acompanha na caminhada! Considerações muita adequadas, para quem busca lançar-se ao mercado de ações, não só financeiro, mas também pessoal, que traz em si a dicotomia latente entre a condição de sujeito e objeto, da nossa líquida sociedade moderna!
Foto repeteco, por Liana Schulman.
