terça-feira, junho 10, 2008

O mito da história.


Recentemente venho acompanhando um curso, onde se pretende estabelecer um paralelo entre os pensamentos psicanalítico e psiquiátrico. Deu-se início, assim, a uma exposição acerca da evolução histórica sobre o que se denominou as causas da loucura, buscando-se situar a sua origem ou a partir do grande outro, ou do somma - o próprio corpo enlouquecido, destacando-se que o deslocamento da amoralidade, como causa inédita da loucura, teria sido introduzido na dialética do pensamento apenas a partir da metade do Século XIX.

A par dessa exposição, foi inevitável que eu, já afeta às questões do que se abarcam pelo nome-cadinho de hinduísmo, fizesse uma interpelação: pois bem, evolução história a partir do pensamento ocidental, considerando que já estava familiarizada com as teorias que remontam a civilização desde as eras da coabitação entre os povos arianos, védicos, autocnes e dravidianos, que teriam florescido aproximadamente entre 2800 e 1900 aC., de acordo com as escavações dos sítios arqueológicos de Mohenjo-Daro e Harapa, localizados onde se situava o antigo Vale do Indo, no atual Paquistão.

Como aponta Carlos Alberto Tinoco (As Upanishads do Yoga, Textos Sagrados da Antiguidade, Ed. Madras, pág. 25/26), a partir da teoria adotada por Georg Feuerstein, os arianos védicos falavam um idioma do grupo indo-europeu, compartilhando muitas características étnicas com os povos da mesma família. Pertenciam ao mesmo grupo dos celtas, godos, persas e outros. Todos os povos que falam indiomas indo-europeus são descendentes dos chamados proto-indo-europeus, que podem ter existido, segundo Feuerstein, já no sétimo milênio antes da era cristã.

Assim é que quis vir até aqui para compartilhar exertos de um artigo entitulado "A Crítica de Hegel à Filosofia da Índia", elaborado pelo Professor Roberto de Andrade Martins (Diretor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp), que se encontra encartado na obra do Prof. Carlos Alberto Tinoco(ob.cit., fls. 209/259).


"De acordo com Hegel, o pensamento oriental precede o surgimento da filosofia propriamente dita, mas não é filosofia. Na evolução do pensamento humano, toma-se como ponto de partida do Espírito a concepção de uma unidade amorfa, que Hegel compara com uma semente, um ser-em-si que é um ponto de partida, mas abstrato, simples, não desenvolvido, que ainda precisa realizar-se, no processo de vir a ser. E, para isso, faz-se necessário um processo de ruptura para com a unidade primitiva, que algo se faça distinto do restante, dando início a uma consciência da distinção. Passa-se, assim, do ser-em si para o estar-lá. De uma unidade passa-se a uma ruptura. O espírito chega ao estar-lá, ou seja, a consciência tem um objeto. Nessa separação surge a idéia de liberdade e de finalidades, de objetivos: o ser existe para si. Como um terceiro estágio, o ser-para-si torna-se consciente da unidade, e deixa o estado de consciência fragmentária. Mas essa consciência da unidade que o Espírito pode atingir não é um retorno à unidade simples primitiva.
Esse processo de evolução pode ser exemplificado na relação entre a filosofia e o mito religioso. O pensamento religioso primitivo tem por sua forma de representação o mito. A religião grega primitiva, por exemplo, tinha por ‘teoria’ a mitologia de seus deuses e heróis. A mitologia permitia aos gregos identificar-se com certas situações, ter certos sentimentos, mas não continha, propriamente, pensamentos. Por isso, como indica Hegel (H.F., p. 169-III),o surgimento da filosofia grega significa uma oposição e um choque com a religião popular. O pensamento filosófico começa a opor-se e desejar criar a sua própria base; o filósifo está lá, e a religião está em outro lugar. Por fim, durante a fase do neoplatonismo, os filósofos reconhecem a unidade fundamental do mito e da filosofia, já não combatem a religião, mas isso não significa uma volta ao princípio simples e indiferenciado: o pensamento continua a existir.

“... O pensamento manifesta-se inicialmente na religião, encontra-se nesse conteúdo substancial; não é, portanto, livre por si. Ele se fortalece; em seguida, capta a si mesmo como repousando sobre si, apoiando-se sobre sua forma e, não se reconhecendo na outra forma (do pensamento religioso), toma uma atitude hostil em relação a ela.
Em terceiro lugar, ele (o pensamento) se reconhece também nessa forma, e chega a reconhecer este outro como um movimento de si próprio”. (H.F., p. 169-I)

É com base nessa sucessão de etapas, reconhecendo em qual delas se situa o pensamento, que se pode determinar o seu valor.

“As primeiras filosofias são necessariamente simples, abstratas e gerais... As primeiras filosofias possuem o conteúdo mais pobre; nelas a idéia é menos determinada; elas ficam em generalidades que permanecem ocas”. (H. F., PP. 127-131-I).

O caráter de generalidade, em uma filosofia, é portanto negativo e primitivo, assim como a excessiva abstração.

(...)

Enquanto muitas pessoas procuram no pensamento antigo a mais elevada sabedoria, Hegel acredita que a filosofia está em evolução positiva constante e que o mais antigo é inferior ao mais moderno. (...) Dentro dessa concepção geral, portanto, a filosofia da Índia é considerada das mais baixas, por ser das mais antigas; corresponde a um período em que não se separa o pensamento religioso do filosófico, e portanto é anterior à criação de um pensamento filosófico autêntico e independente; e é um pensamento típico da fase de unidade amorfa do Espírito, caracterizando-se, portanto, por sua abstração, sua generalidade. Esse pensamento é então pré-filosófico. (...)

Hegel vê toda essa concepção como o resultado de uma imaginação desvairada e sem limites, que quer transformar tudo em divino, e que por isso mesmo rebaixa a idéia do divino. (...)
Hegel também vê nesse tipo de panteísmo uma irracionalidade extrema, pois nele algumas vezes o Absoluto é apenas o Uno, Brahmam, e os deuses são apenas partes; mas outras vezes cada uma das partes, ou uma delas em especial, é considerada como o próprio Absoluto, o que é absolutamente ininteligível.
Hegel vê na religião indiana um pensamento confuso e instável, em que nada é fixo, as formas e as idéias mudam como nuvens... (...)

Note-se que, ao descrever a doutrina do Yoga como filosofia, Hegel está apenas sendo irônico, e não contradizendo sua posição inicialmente exposta. Quando fala sobre a Índia, ele não está apenas expondo idéias; está fazendo retórica, e por isso é importante reproduzir sua linguagem, como estamos fazendo por meio dessas citações. Nelas, pode-se notar todo o desprezo pelos indianos:

“Eles renunciam a todo movimento, a todo interesse, a toda ligação. Cessam de visitar os amigos, renunciam a tudo o que é humano e mergulham em uma meditação silenciosa. Eles são venerados e nutridos por outros; eles permanecem sem falar, em um embrutecimento morno, com os olhos fechados ou fixando o Sol. Quando um indivíduo se mantém nessa abstração renuncia a tudo e está morto para o mundo, ele é chamado Yogin” (F.R, p. 136).

Hegel sabe muito bem que esses místicos eram conhecidos e admirados pelos gregos, desde a expansão de Alexandre Magno. Por isso, ele toma o cuidado de anular o efeito do conceito dos gregos. (...)

As sucessivas estruturas sociais que a humanidade desenvolveu em sua história são aspectos particulares da evolução do espírito; essa evolução é dirigida pela potencialidade interna do próprio Espírito, que quer conhecer-se e se realizar: ‘Pode-se dizer que a história universal é a representação do Espírito em seu esforço para adquirir o conhecimento daquilo que ele é”. (F.H, p 28). Ora, o Espírito é essencialmente livre, mas no início de sua evolução ele não tem consciência disso. Esse estágio mais baixo corresponde ao Oriente; “Os orientais não sabem ainda que o Espírito ou o homem como tal é livre em si. Como não o sabem, eles não o são” (F. H., p 29).

Essa descoberta da liberdade teria sido gradativa; os orientais, não se sabendo livres, deixavam-se dirigir por qualquer um; este um, o déspota, era livre, mas só ele. Na Grécia, teria surgido, depois da consciência da liberdade, mas esse conceito se aplicava apenas a alguns: os cidadãos. Os escravos não eram livres. Portanto, os gregos e os romanos sabiam apenas que alguns eram livres. Por fim, as nações germânicas teriam atingido, dentro do Cristianismo, a consciência de que o homem como tal é livre (F.H, p. 29, H.F, PP. 63, 73, 200-206).

No Oriente, há apenas um tipo de liberdade que Hegel chama de ‘liberdade substancial’ (H.F, 96). Os sujeitos se subordinam a leis e mandamentos externos, que não brotam da vontade dos indivíduos. ‘Os sujeitos são assim semelhantes a crianças, que, sem vontade nem julgamento próprios, obedecem a seus pais’, com fé e confiança cegas (F.H, p. 97). Os sujeitos evoluem em torno de um centro, de um soberano que os encabeça como patriarca. Esse patriarca deve aplicar e fazer obedecer a uma moralidade à qual os sujeitos precisam conformar-se. O fator moral é substancial. Sendo as leis exteriores ao sujeito, elas só possuem direito coercitivo (F.H, p. 105). O homem não tem a intuição da sua vontade própria, mas de uma vontade que lhe é estranha. Por essa sua índole, os orientais são facilmente dominados, e como os europeus, pelo contrário, são enérgicos e dominadores, ‘submeter-se aos europeus é o destino fatal dos impérios asiáticos’.

A estrutura das castas, na Índia, é a evidência clara dessa ordem artificial externa, que não brota dos sujeitos.
Para que a liberdade se realize, deve-se ultrapassar o egoísmo e as paixões, a vontade subjetiva; a ação livre se baseia no conhecimento da vontade universal, racional. Dessa forma ocorreria uma harmonização entre o Estado e o indivíduo (F.H, p. 52). Pelo pensamento, o indivíduo deve perceber-se como pessoa, ou seja, em seu ser singular, e ao mesmo tempo como uma coisa universal, em si, capaz de abstração, capaz de renunciar ao individual e conseqüentemente descobrir-se com algo de infinito aos desejos e aos interesses terrestres; mas o fim não é a liberdade e sim ‘é a negação da consciência, a morte espiritual e até física’ (F.H, p. 71).

O grau mais baixo de liberdade é, para Hegel, o dos chineses, em que, segundo ele, não haveria nenhuma consciência de individualidade: o povo seria uma massa amorfa, uma unidade indiferenciada de todos os indivíduos, submetidos a um imperador (F.H, p. 133). Na Índia, surge um certo progresso em relação à China, pois agora há uma diferenciação entre os indivíduos. No entanto, em vez de produzir liberdade real, essa diferenciação se torna algo fixo, uma lei da natureza, que se manifesta nas quatro castas...omissis... Como só os brâhmanes podem desempenhar as funções sacerdotais, a religião indiana discriminaria entre os vários tipos de pessoas, não sendo igualitária. (...)

Essa posição de Hegel não é causal nem um mero apêndice a seu pensamento filosófico. O centro da filosofia hegeliana é a teoria da História, e essa história é a evolução do Espírito. O Espírito sempre evolui, e jamais pode regredir. Todas as manifestações de um povo, em uma época, estão organicamente ligadas e exprimem o estágio atingido pelo Espírito naquela situação. Como a civilização da Índia precedeu à grega, e como o Espírito deve ter evoluído do seu estágio antigo, oriental, para o estágio grego – segue-se que o Espírito produzirá necessariamente manifestações mais elevadas na Grécia do que na Índia. E isso deve-se aplicar a todas as manifestações – filosofia, religião, arte, etc. – pois todas elas são apenas epifenômenos da evolução do Espírito uno. Dentro dessa visão, é necessário que a arte grega supere a indiana, que a moral grega seja superior à da Índia, e assim por diante. Em Hegel, os dados históricos e a teoria metafísica se harmonizam totalmente; e o caso da Índia não poderia ser uma exceção.

(...)

O intercâmbio entre a Índia e a Europa foi muito superficial e pobre, durante milênios. Na época em que se inicia a formação do espírito grego, não parece haver nenhuma comunicação entre a Índia e o Ocidente. Homero não fala sobre a Índia, e a primeira descrição mais extensa sobre essa região é encontrada em Heródoto, que, embora não tenha visitado a índia, baseou-se na descrição de um explorador, Scylax de Caryanda, que percorreu a região do Indo na época de Darius. Mas foi apenas por ocasião das expedições de Alexandre, o Grande, à Ásia, que se obteve um contato direto com os indianos –e, mesmo assim, é preciso lembrar que Alexandre apenas penetrou algumas centenas de quilômetros no território indiano, nas proximidades da parte alta do Indo. A história das expedições de Alexandre e a descrição das regiões por ele atingidas foram expostas, entre outros autores, por Arriano de Nicoméida, que se baseou em autores anteriores, com Megástenes (embaixador de Seleucos em Paliputra, aproximadamente 300 a C.). (...)

Não se observa na narração de Arriano nenhuma crítica ou menosprezo à estrutura social dos indianos. Ele toma as poucas e confusas informações que dispõe e as descreve com imparcialidade, como um bom historiador. Suas informações sobre os sofistas – que são chamados ‘bracmanes’ por outros gregos’ não são negativas; ele enfatiza, como foi visto, o caráter de dignidade profissional imposto aos adivinhos (com a pena do silêncio, após três tentativas de acerto fracassadas*); e de modo algum descreve essa casta como privilegiada. (...)
Note-se, portanto, que Arriano tem informações extremamente positivas sobre os indianos e sua ética – muito diferente das informações utilizadas por Hegel. E note-se que, por sua linhagem, ele não distingue a estrutura política da Índia da existente no mundo grego: ele se refere à existência de repúblicas entre os indianos.

É claro, portanto, que Hegel não se baseou em fontes gregas, como esta, para formar a sua opinião sobre os indianos.
O contato entre a Índia e o Ocidente foi rompido antes da era cristã. Durante muitos séculos, as informações eram as fornecidas pelos antigos, e essa situação somente se alterou com a viagem de Marco Pólo ao Oriente. Esse viajante, que percorreu a Pérsia, a Índia e a China em fins do século XII, realizou em sua volta à Itália uma descrição em grande parte fantástica do Oriente, que excitou a curiosidade dos europeus.

(...)

Passando a uma visão crítica, questiona a validade das conclusões feitas por Hegel.

“Tomemos, em primeiro lugar, os testemunhos sobre a religião da Índia. Esses testemunhos são provenientes de pessoas seguras de que sua própria religião (o Cristianismo) é a correta, e de que nada do que difira do Cristianismo pode ser verdadeiro. Para essas pessoas com o seu preconceito cultural, é impossível tentar captar o que existe de bom dentro da religião indiana. Talvez seja conveniente recordar algo da tática de conversão utilizada pelos portugueses na Índia. (...) O resultado foi que, no século XVIII, só havia católicos nas possessões de Portugal, na Índia. Jacolliot viu pessoalmente, em Goa, alguns indianos cristianizados pelos portugueses: um deles se arrastava, pois seus membros tinham sido deformados pelas máquinas da Inquisição; outro ao tinha língua nem olhos; um terceiro tinha as mãos cortadas; e o quarto tinha seus pés quebrados pelas prensas da Inquisição. Certamente se pode criticar os fanáticos indianos que se jogavam sob as rodas do carro do ídolo; mas pelo menos essa morte era voluntária; muito pior é o fanatismo dos cristãos que matavam e aleijavam os indianos, simplesmente para que mudassem de religião. Antes de Hegel, Voltaire já estava bem consciente dessa limitação das narrativas européias e da injustiça cometida contra os indianos. No seu Dicionário Filosófico, verbete bracmanes, brames, Voltaire se refere aos indianos dizendo:

“Seus ritos, seus pagodes, provam que tudo era alegórico entre eles; eles representavam ainda a virtude sob a forma de uma mulher que tem dez braços, e que combate os pecados mortais representados por monstros. Nossos missionários não deixaram de tomar essa imagem da virtude pela do diabo, e de afirmar que o diabo é adorado na Índia. Jamais fomos até esse povo senão para nos enriquecer e para caluniá-los”.

*explicação introduzida por mim, a partir de trechos suprimidos na transcrição.

** Post em homenagem à minha querida irmã 'chiquita', que hoje hace cumpleaños! :))

segunda-feira, junho 09, 2008

Os nós do Islã.




Hoje deparei-me com esse texto, que me foi enviado pelo amigo de sempre, o Murilo, em algum dia de 2007. Após três dias de intensas e maravilhosas discussões sobre o "Caçador de Pipas", livro de Khaled Rosseini, esse artigo me parece providencial, motivo pelo qual o compartilho aqui.

Disseminação da consciência ou enodoamento de uma religião?




Por GARY LEUPP, em 10.10.2007.

Com muita fanfarra, uma coleção de ideólogos da extrema direita apoiada por dinheiro de "instituições de pesquisa interdisciplinar" da direita estão proclamando uma "Semana da Consciência do Islamofascismo" nos campus universitários a partir de 22 de outubro. É um esforço calculado para vilescer o islã em geral, colocar as Associações de Estudantes Muçulmanos - Muslim Student Associations na defensiva, e gerar apoio para mais ação militar dos Estados Unidos no mundo islâmico.

Os muçulmanos constituem cerca de um quarto da população do mundo e cerca de dois por cento da população dos Estados Unidos. Entre eles incluem-se membros de muitos grupos étnicos. Os árabes são minoria no mundo muçulmano; os mais populosos países muçulmanos (Indonésia, Paquistão, Bangladesh) são não-árabes. O mundo muçulmano é complexo e dividido, religiosa (em sunitas, xiitas e outros grupos) e politicamente. Há monarquias absolutas muçulmanas, monarquias constitucionais, estados seculares e repúblicas islâmicas. Para entender esse mundo, é preciso examiná-lo desapaixonadamente, evitando estereótipos.

Entretanto, imediatamente depois do 11/9, a administração Bush, não tendo paciência com "nuanças," lançou-se à tentativa de vincular a república secular do Iraque aos fanáticos religiosos (em sua maioria sauditas) da al-Qaeda. Ela acreditou que, tendo sido atacados pela al-Qaeda, a maioria dos estadunidenses apoiaria um ataque contra o alvo, completamente não vinculado àquela organização, do Iraque. Mas o que tinham em comum a al-Qaeda e o Iraque? A primeira odiava esse último por sua supressão do ativismo religioso islâmico, e sua tolerância em relação aos cristãos e a outras minorias religiosas. De algum modo, entretanto, Bush conseguiu associar os dois, de modo que mesmo nos dias de hoje cerca de um terço dos estadunidenses acredita que Saddam estava envolvido no 11/9. As pessoas que se situam na direita cristã inclinam-se mais para adotar esse ponto de vista, e para dar guarida a sentimentos tais como aqueles expressos pela extremista de direita Ann Coulter na National Review de 13 de setembro de 2001: "Nós deveríamos invadir os países [muçulmanos], matar seus líderes e converter seus povos ao cristianismo." Mas essas pessoas foram acrescidas de neoconservadores secularistas como Norman Podhoretz que pediu a Bush que bombardeasse o Irã, que ele chama de "atualmente o principal centro da ideologia islamofascista."

O Irã é outro país que não tem vínculo com o 11/9 ou com a al-Qaeda, e que é, na verdade, inimigo mortal dessa última. É, no entanto, outro estado muçulmano na mira da administração Bush, juntamente com a Síria -- embora esta seja outro país muçulmano muito diferente. É nesse contexto, e no de decepção generalizada com a Guerra do Iraque, que os neoconservadores radicais estão promovendo essa "Semana da Consciência do Islamofascismo." É produto do esforço criativo de David Horowitz, "ex-esquerdista" profissional e comentador da Fox News, proponente da Guerra do Iraque, que chamou uma manifestação de oposição à guerra em 2002 de " 100.000 comunistas," e autor de um livro atacando professores universitários como sendo "de extrema esquerda" em geral. Ele fundou (como não-estudante em seus anos 1960) a "Estudantes Pela Liberdade Acadêmica" - "Students for Academic Freedom" que insiste em que estudantes conservadores são tratados iniquamente na academia. Horowitz é conhecido por sua publicidade nos anos 1990 em jornais de estudantes protestando contra os que preconizavam indenizações pela escravidão, declarando que os africanos-estadunidenses deveriam ser gratos por estarem aqui. Em 2003 ele denegriu Rachel Corrie, morta por um buldôzer militar israelense quando protestava contra a demolição de uma casa em Gaza, chamando-a de apoiadora de "terroristas." Ele não está empenhado em disseminar "consciência" e sim em focalizar seletivamente aspectos do mundo muçulmano que possam produzir simpatia para mais "mudança de regime" patrocinada pelos Estdos Unidos.

A estratégia de uma "Semana da Consciência do Islamofascismo" consistirá aparentemente em enfatizar a desigualdade entre os sexos no mundo muçulmano. Os estudantes participantes convidarão grupos de mulheres e grupos de lésbicas a se envolverem, esperando construir uma frente unida de indignação geral com a opressão islâmica de mulheres e gays. Obviamente, no mundo muçulmano o estatuto das mulheres varia; no Iraque secular de Saddam, as mulheres não eram sujeitas a nenhum código de vestimenta, e trabalhavam no governo, enquanto que sob a ocupação dos Estados Unidos seu estatuto (e o dos gays) despencou. Há uma grande diferença entre a situação das mulheres na Síria e na Arábia Saudita. Lembram-se de como Laura Bush fez grande alarde a respeito da burqa no Afeganistão, implicando em que a invasão dos Estados Unidos de alguma forma a removeria? Ela ainda é vestida pela grande maioria das mulheres afegãs. Ela não foi inventada pelo Talibã e não desapareceu apenas porque os Estados Unidos empossaram um regime cliente.

O próprio termo "islamofascismo" -- popularizado por Eliot Cohen (adjunto de Condi Rice), Frank J. Gaffney e outros escritores neoconservadores na National Review, e usado pelo Presidente Bush em discursos ameaçadores -- é altamente problemático. É definido no New Oxford American Dictionary como "expressão controvertida que iguala alguns movimentos islâmicos modernos com os movimentos fascistas europeus do início do século vinte." Todo ano eu ensino a respeito do fascismo japonês nos anos 1930 e 1940. Discuto diferentes definições de fascismo, enfatizando como algumas parecem adequar-se ao caso japonês, enquanto que outras não se ajustam a ele, o que leva alguns eruditos a mesmo rejeitar a aplicação do termo. Mas há pouquíssimas definições de fascismo aceitas na erudição majoritária aplicáveis ao mundo islâmico em geral ou até a países específicos. Qual seria a "ideologia" unificadora dos alvos díspares desta administração -- os fanáticos da al-Qaeda e os fanáticos sunitas do Talibã, os baathistas do Iraque e da Síria, a mullocracia xiita da "democracia dirigida" do Irã -- se não o denominador comum do islã? Não é possível, entretanto, decentemente (*), atacar-se o islã em geral e, por isso, apelida-se-o de "islamofascismo."

(*) in polite company - também, in polite society - Em companhia de gente fina, isto é, de maneira aceitável por pessoas civilizadas. Ver Macmillan. Parece-me que em português recorremos a um conceito interiorizado em vez de social: 'em sã consciência.'

Aqueles que procuram vincular o islã contemporâneo ao fascismo europeu enfatizam sentimentos de vitimização e sonhos de restauração da glória perdida. Quem, porém, no mundo muçulmano, é o líder carismático? Bin Laden? Os baathistas e xiitas o odeiam. Onde está o partido baseado nas massas? Onde estão o ultranacionalismo ou o racismo? O islã enfatiza a igualdade das pessoas diante de Deus, enquanto que o Corão explicitamente declara que cristãos e judeus probos entrarão no Paraíso.

A intenção real, aqui, é acoplar ao "islã" um epíteto poderoso, destituído de conteúdo analítico, conjurando-se imagens de um passado universalmente detestado. Bush insiste em comparar o constitucionalmente fraco presidente iraniano Ahmadinejad, líder de um país que em um século não atacou outro, com Hitler (como o pai dele comparou Saddam a Hitler). Analogamente, os proponentes do conceito de "islamofascismo" querem usar as emoções em vez de realmente disseminar "consciência." Suas analogias históricas são absurdas, e sua planejada semana é mais do que uma afronta aos muçulmanos. É um insulto à inteligência de todos".

E, para continuar interrogando, como bem arrebatou Cristiano Paixão, em sua exposição feita em 7.6.2008, em Curitiba, sobre "Terrorismo: memória, história e religião - o islã em perspectiva diacrônica", é de bom alvitre inteirar-se sobre os eventos que passaram à história como o renascimento espanhol, iniciado em 1492, culminando, em 1619, com o fim da diáspora de judeus e muçulmanos do território espanhol, que teve início com o Decreto de Alhambra. E para quem tiver bastante estômago, pode buscar informações sobre a forma como morriam os condenados por pena de traição... que era bem pior do que a pena destinada a quem era condenado por assassinato: fogueira para as mulheres e decaptação para os homens. Mas a pena de traição impunha rituais muito mais compatíveis a quem se atrevia não a ultrajar apenas um corpo, mas uma idéia, uma crença, uma visão de mundo. E, a partir daí, podemos entender melhor esse retorno da violência recalcada. Recalcada, mas impossível de ser contida, nos mostra reiteradamente a história.

Convém, por fim, observar que esse namoro nos precede de há muito, como se bem pode perceber das ruínas tão genuinamente romanas, para o lado de lá. Tema para um post a seguir...




Gary Leupp é Professor de História na Tufts University, e Professor Adjunto de Religião Comparada. É autor de Servos, Trabalhadores no Comércio e Trabalhadores Braçais nas Cidades do Japão dos Tokugawa Servants, Shophands and Laborers in in the Cities of Tokugawa Japan; Cores Masculinas: O Significado do Homossexualismo no Japão dos Tokugawa Male Colors: The Construction of Homosexuality in Tokugawa Japan; e Intimidade Inter-racial no Japão: Homens Ocidentais e Mulheres Japonesas, 1543-1900 Interracial Intimacy in Japan: Western Men and Japanese Women, 1543-1900 . É também colaborador da implacável crônica de CounterPunch das guerras no Iraque, Afeganistão e Iugoslávia, Cruzadas Imperiais Imperial Crusades.


Ele pode ser encontrado em: gleupp@granite.tufts.edu
(Esta coluna apareceu originalmente no Diário da Tufts - Tufts Daily.)


http://www.counterpunch.org/leupp10102007.html - tradução feita a partir do orignal, em inglês, por Murilo Paes Leme.

Fotos por Ketty El Hajjar, no Líbano, abril de 2008.


1ª foto: Biblos (rua de árvores)
2ª foto: Bcharre (montanha, Igreja e neve)
3ª foto: Balbeck (templo)



PS: Logo que terminei a reprodução deste artigo, fiquei à procura de algumas imagens para ilustrar a diversidade de crenças e culturas que coexistem em algum lugar além do horizonte. Lembrei-me das fotos que havia recebido como recordação da viagem de uma amiga à terra de seus ancestrais. E, em seguida, uma outra amiga presenteou-me virualmente com as imagens de uma mesquita - sendo essa, talvez, a primeira vez que eu tenha tido a oportunidade de vislubrar o interior de um templo de oração do islã.
(infelizmente, porém, não consegui, ainda, fazer o link - o qual espero que esteja aqui em breve).

A imagem fala por si só?




Sempre gosto de brincar que um bom título fala por si mesmo. Mas um título já é algo nominável, que adentrou no mundo da linguagem. E as imagens? Será que dizem, em símbolo, do que se encontra para mais além, no lugar do indizível?

Fotos, para antecipar algum dizer sobre o que não se diz! Enfim, talvez seja a hora de arriscar jogar com a perversão, tão em voga em nosso contexto da modernidade. De conversar com Ulrich, o herói do romance Der Mann Ohne Eigenschaften, de Robert Musil: o homem sem qualidades, aquele que, não tendo qualidades herdadas, adquiridas ou mesmo incoporadas, produziu-se por si mesmo, mas de uma forma tênue e mutável, dado que suas qualidades não podiam perdurar frente ao seu entorno, que mudava com uma rapidez imprevisível. E assim se encontra o cidadão de nossa líquida sociedade moderna, nas palavras de Zygmunt Bauman, prefaciando "Amor Líquido", Editora Zahar, pás. 7/8.

"Não tendo ligações indissolúveis e definitivas, o herói de seu livro - o cidadão de nossa líquida sociedade moderna - e seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam conectar-se... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência. De qualquer modo, eles só precisam ser frouxamente atados, para que possam ser outra vez desfeitos, sem grandes delongas, quando os cenários mudarem - o que, na modernidade líquida, decerto ocorrerá repetidas vezes".

"Carecendo da visão aguda de Musil, tanto quanto da riqueza de sua palheta e da sutileza de suas pinceladas - de fato, de quaisquer dos requintados talentos que fizeram de Der Mann Ohne Eigenschaften um retrato definitivo do homem moderno -, devo restringir-me a traçar um painel de esboços imperfeitos e fragmentários, em lugar de tentar reproduzir uma imagem completa. O máximo que posso esperar obter é um kit identitário, um retrato compósito capaz de conter tanto lacunas e espaços em branco quanto seções completas. Mesmo essa composição final, contudo, será um trabalho inacabado, a ser concluído pelos leitores".

Entretanto, considerando que a previdência me nomina, o que coloco, acima de tudo, é: será que o que irrompe, às vezes de uma forma aparentemente cruel, nos fazendo conviver com um terrorismo intermitente, sempre possível de vir à tona, é assim tão imprevisível? De certa forma, a grande lição que tivemos até aqui, a qual foi muito bem dita por Freud, cuida do diálogo do sujeito frente às suas escolhas, mesmo aquelas que são tomadas a partir de um lugar outro, às vezes revestidas de um véu que se pretende inconsciente.

sexta-feira, junho 06, 2008

Ah, lo Previdi II - Breves interlocuções






Ah, para vocês que me conhecem, acho que achei uma boa foto para ilustrar um dos posts que me ocorrem... justo por sentir uma aura de paixão e de amor pelo que ando ouvindo nas 'Jornadas de Direito e Psicanálise' da qual estou participando nesses dias. E, para falar a verdade, não gostaria que fossem ratos, não importa quão bonitinhos sejam os que aqui estão nessa linda foto, recebida com as palavras que diziam retratar a imagem perfeita para falar do amor e da amizade... mas, talvez por isso mesmo, os ramsterszinhos sejam muito adequados. Assim, em três, remetem para o lugar dos "sujeitos destinados a ocupar o lugar do objeto rejeitado - o do cordeiro que sabe que será sacrificado", nesse enfrentamento do declínio da função paterna. Ratos, mas ratos bonitinhos, nada feios, para bem dizer desse lugar do sintoma sem sujeito, ocupado pelos desenraizados, sem qualidades, pelos sujeitos 'desassujeitados', desprovidos de si mesmos.

Interlocuções feitas a partir da conferência proferida por Filipe Pereirinha (Antena do Campo Freudiano-Lisboa/Portugal), agorinha a pouco... ou seja: ilações fresquinhas, nesse estranho retorno do familiar.

Breves interlocuções para dizer de muitas boas coisas que estarão aqui para serem compartilhadas, no tempo oportuno.

Enjoy, pois no porvir vou contar do "estranhas, depois entranhas" & "entranhas,depois estranhas". Uma campanha publicitária, da lavra de uma querida Pessoa, que respondia pelo prenome de Fernando, também poeta, a qual foi veiculada em 1928, em Portugal. Feita para quem? Coca-cola, oras! Uma das melhores representantes contemporâneas dessa carinha feliz dizendo Enjoy :))