quinta-feira, maio 21, 2015

A quintessência do DNA

Depois de uma longa ausência, voltando a cuidar do Jardim da Palavra.

"Se cada autor, cada escritor, cada pensador e cada artista tem por quintessência do seu DNA imaterial a ironia, por hipótese, como impedir que seja igualmente irônica a sua produção intelectual, ou artística, ou comunicacional.  se ele for um incréu (Millôr Fernandes fala do direito fundamental à descrença), um agnóstico, um iconoclasta, um evolucionista, um questionador, um anarquista ("Anarquistas, Graças a Deus", é o mais conhecido dos livros de Zélia Gattai), um arauto do holismo, da utopia e do surreal, como impedir que venha a contraditar, incomodar, desagradar ou até mesmo ofender, chocar, vexar, revoltar quem não o seja? Como proibir que o indivíduo seja ele mesmo em tudo que fizer, de sorte a que tudo que ele fizer seja ele mesmo? Encarnado e insculpido, como se dizia em português dos tempos idos? Impossível, a não ser pelo raso e frio holocausto da liberdade de imprensa em nosso País
" (STF-ADPF 130/DF, Ministro Carlos Ayres Britto, 30.04.2009)

"Quanto mais a democracia é servida pela imprensa,mas a imprensa é servida pela democracia" (Ministro Carlos Britto).

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Sr. Narciso, quanto há de homossexualidade na D. Vaidade?

quarta-feira, março 10, 2010

Jurisprudências e suas incongruências

A orientação jurisprudencial que vem sendo consolidada acerca de questões consumeristas apresenta, sob o meu ponto de vista, incongruências lógicas que vêm ao amparo justamente do prestador/produtor/comerciante, ao invés do consumidor, que não em tese, mas em observância à própria ordem constitucional, deve ter a preferência.

Segundo restou assentado na Súmula 404 do Superior Tribunal de Justiça, "é dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros", cuja falta caracteriza dano moral in re ipsa, ou seja, aquele que decorre do próprio ato e independe da prova do efetivo prejuízo. A questão deve ser interpretada, ainda, conforme o entendimento de que a "ausência de prévia comunicação ao consumidor da inscrição do seu nome em cadastros de proteção ao crédito, prevista no art. 43 , §2º do CDC, enseja o direito à compensação por danos morais, salvo quando preexista inscrição desabonadora regularmente realizada", o que foi consolidado pelo enunciado da Súmula 385 do Superior Tribunal de Justiça: "Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento".

Dentre os questionamentos acerca da matéria usualmente trazidos ao judiciário, temos as indenizações pleiteadas com fundamento na contratação de dívidas por terceiros estelionatários, que são firmadas com a utilização de documentos furtados ou falsificados. Nessas circunstâncias, se o banco de dados cadastrais envia a notificação para o endereço fornecido no contrato objeto de fraude, o consumidor que teve o seu nome usado pelo terceiro certamente não será notificado. Entretanto, comprovando o órgão cadastral a remessa da notificação postal, via correio, não poderá ser responsabilizado, pois considera-se válida essa notificação, de acordo com o enunciado da Súmula 404 do Superior Tribunal de Justiça. E como fica a responsabilização de quem determinou a ordem de inscrição?

Com um pouco de boa-vontade, pode-se ir um pouquinho além para concluir a dificuldade de criar-se normas e entendimentos jurisprudenciais que não esbarrem nas peculiaridades e casuísticas que geram a indesejada exceção. Se o consumidor que teve o seu nome inscrito indevidamente vem a ter ciência do registro muito tempo após a sua efetivação, quando já escoado o prazo prescricional de três anos previsto no artigo 206, § 3º, V, do Código Civil, permenece hígido o entendimento de que o prazo tem início apenas quando a parte prejudicada teve ciência efetiva, geralmente quando tem algum financiamento ou compra a crédito negada no comércio, ou quando foi enviada a notificação para o endereço fornecido pelo fraudador, que, tecnicamente, pela Súmula 404 do STJ, é legítima e eficaz?

Outra curiosidade jurídica que decorre desse contexto é a de gerar a obrigação do consumidor em provocar a jurisdição e pleitear o cancelamento do registro indevido, pois se porventura sofrer outro registro irregular, poderá ter eventual futura pretensão indenizatória frustrada, pois a Súmula 385 do STJ exclui o direito de reparação moral se preexistente legítima inscrição. E como quem cala consente, segundo a reiterada sabedoria dita popular, lá se vê o consumidor obrigado a contestá-la, se precavido for...?

E como o pacífico consumidor saberá se há inscrição preexistente em seu nome? Se essa estiver ativa e pendente, conseguirá facilmente uma certidão do órgão cadastral. Se já tiver sido excluída, o que acontece, por exemplo, se houver pedido do próprio credor ao reconhecer que foi realizada por equívoco, não haverá meios de obter essa informação por simples pedido ao órgão de dados. A sistemática atualmente por eles adotada exigirá que você entre com uma ação de habeas data ou indenizatória com pedido cautelar de que seja requerido, pelo juízo, o histórico do consumidor... E se por acaso se deparar com uma outra inscrição indevida da qual não tinha conhecimento, não caberá indenização por dano moral, conforme orienta a atual Súmula 385 do Superior Tribunal de Justiça. Ou será que a existência de prévias anotações permitirá ao julgador aferir, caso a caso, se o consumidor pode ou não ser equiparado ao que se denomina "devedor contumaz", em tais situações, conforme os precedentes jurisprudenciais que deram ensejo à aprovação do enunciado em questão, é uma questão que causa questão...

A sutileza das proposições permite concluir, infelizmente, que a defesa do consumidor, a ser promovida pelo Estado (art. 5º, XXXII, Constituição Federal), com a legalmente reconhecida "facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando a critério do juiz, for verossímel a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiência" (art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor), continua sendo uma batalha de titãs.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Para Zilda Arns, in memorian



Sem palavras e enternecida pela candura de um anjo, reconforto-me na luz da vida que fica...

quinta-feira, novembro 26, 2009

Nos Caminhos do Viamão.

Hoje vim aqui compartilhar uma história de família, que sempre que escuto me faz pensar: sim, vovô, você para mim sempre foi um herói! Lembranças são muitas e as que ficaram com mais força sempre remetem à alegria em fazer festas, dançar e brincar, pois a vida é um caso sério, que vivida com amor e humor fica melhor ainda.

Pois vinha meu avô, lá pelos idos anos de 1940, passageiro no bonde da cidade, cujo ponto final era pertinho da sua casa. O caminho do trajeto às vezes era ladeado por canaletas, que ficavam repletas d'água, principalmente após dias de chuva intensa. Sempre muito atento a si mesmo e ao mundo ao seu redor, percebeu a cabeça de uma criança se debatendo naquelas águas ao longo do caminho. E com a presença de espírito que lhe era sempre peculiar, dependurou-se em um dos canos de apoio, inclinou-se rumo à canaleta e puxou a crinça para cima pelos cabelos. Quando a olhou nos olhos, assustou-se, ao mesmo tempo em que agradecia àquele gesto desinteressado pelo próximo, que tanto alívio e agradecimento trouxe a si mesmo, por ter evitado o que poderia, também para ele, ter sido uma tragédia. A menininha, na beira do caminho, era a sua filha mais velha. Hoje uma linda senhora que, ultrapassada a linha dos 70, ainda conserva o frescor da juventude nos cabelos loiros de sempre...

* Viamão= nome dado ao caminho dos tropeiros, cuja rota é a mesma que hoje dá nome a várias ruas da minha cidade, mas que em verdade poderia ser uma única rua que a atravessa de ponta a ponta.

segunda-feira, novembro 23, 2009

There's comes the Sun! And it's all right?

Os efeitos do sol e seu poder de fogo andam a cada dia mais devastadores para as peles desprotegidas de filtro solar, após um rigoroso inverno e mesmo no horário usualmente permitido - antes das 10 horas sem o andiantar de ponteiros, que a proibição para o uso de burkas no país de Mademoiselle Coco Chanel tem sérias chances de se tornar regra obsoleta num futuro breve. Cobrir o corpo, de fio-a-pavio, pode vir a ser uma necessidade, não sendo mais restrita às mulheres e vista como questão de cunho religioso, filosófico, político ou cultural, em que se traz para o real o velamento inerente à feminilidade e seu poder de fascínio.

terça-feira, novembro 10, 2009

Alegria em Si.


Amanhã é um novo dia!
Alegria em si,
Nem preciso de poesia...

quarta-feira, outubro 14, 2009

Contando carneirinho à luz do dia.




Hoje pintei a minha tela de azul, com nuances frescas de verdes mares e uma linha ligeiramente curva de areia branca, para acolher os pés que seguem soltos como a’lma, mas estranhamente senhores de si... era o carneirinho de verde e azul que eu contava antes de dormir, que aquarelou dourado de sol pelas bandas de cá.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Em'moção


Quem perde a razão,
Nunca tem razão.
Eu vivo em'moção.

terça-feira, agosto 18, 2009

Estrelas do Destino


Não acredito em astrologia,
Mas se a lua rege as marés,
Dela não desconfio:
Que "la hay, la hay"...

Da memória dos raros que vi,
Perguntei ao astro cadente,
Vestida de curiosa menina:
Para onde nos levam as estrelas?

O brilho rápido e passageiro,
De fato um cometa ligeiro,
Sussurrou-me rasteiro:

Iluminam as escolhas frente ao matreiro,
Guiam teu destino sem desatino -
Segue, sem receio, as que trazes em teu seio.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Hosana nas Alturas




Eu, Passarinho,
Sozinho,
Enrolado, fico sem ninho...

Mas quando lá no céu,
Você, Passarinha,
Suas asas sassarica...

Hosana nas alturas!

É canto, é festa, é alegria!
Pois eis que sou seu Rey
E você a minha Glória!

Reynaldo e Glorinha foram regentes de uma família por mais de cinquenta anos e fazem parte das minhas queridas lembranças sentimentais de outrora. Quando a terra os separou aqui, a saudade foi tamanha que não tardou a se reencontrarem lá no céu. E pegando carona no espírito daqueles que me presentearam com um jeito de viver em que o riso e o canto se traz impresso na alma e no coração, que faz os olhos sorrir e a boca frouxa se abrir, para dar a conhecer o que na vida conta, sem fazer de conta, deixo aqui a minha pequena homenagem.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

A história que o sonho me contou.


Das lembranças dos sonhos vividos, que o acordar para a realidade permite, pois nem sempre é possível ter acesso a tudo o que é experimentado nesse outro mundo, esta noite trouxe-me uma novidade: o retorno. Ao abrir os olhos, surpreendeu-me a lembrança da familiaridade que a minha tela mental retratava: a minha alegria e entusiasmo ao me preparar para estar novamente em um lugar que já conhecia. O inusitado, digno de se dar a conhecer, é que esse lugar me era familiar, sim, mas por outro sonho, do qual também pude recordar ao amanhecer do dia, alguns meses atrás. Esse singelo relato fica por aqui, mas esse pequeno grande detalhe, para mim, não poderia ficar esquecido nos recônditos dos segredos que a noite abriga. Se as histórias podem prosseguir nesse mundo lúdico, o sonhar, à luz do sol, mais do que nunca, deve continuar... E assim termina a história que o sonho me contou.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Caleidoscópio


Trans-parentes.
Assim deveria ser a vida,
Imagens, sem miragens,
Contentes!

Constante flainar,
Segue em únicos instantes,
A transcender a cá-lei-do-escópi'o:*
Mil personagens de si mesma.

Dá-me a mão, imagem refletida?
Vertida e alienígena,
Despida, peça ao contrário.

*escópico, vide comentário.
*Concebida lá pelos idos 2006, nasceu hoje.
*Ilustração em http://universo70.files.wordpress.com/2007/12/logo_caleidoscopio-animado.gif

terça-feira, novembro 18, 2008

Dhyanabindu Upanishad

I

O pecado acumulado durante a vida
é alto como uma montanha
e longo como mil léguas!
Só pode ser destruído
pela prática da meditação:
Não há outro meio.

II

A sílaba germe (bija mantra)
é encimada por um ponto
e por uma lua crescente.
Ela é sonora,
mas, se for destruída a sílaba,
não resta senão o Absoluto,
silencioso.


XXXVII

Fluindo como o azeite
vertido em jato contínuo,
semelhante ao zumbido
de um sino tocando ao longe,
é a ressonância indizível
da sílaba Om;
quem a conhece, conhece o Veda.

XXXVIII

Estabelecido firmemente
na prática do Yoga
o yogin aspira o ar
como se aspira a água
por meio de um bambu;

XXXIX

tendo reduzido o lótus
à metade de um botão,
ele aspira o ar exterior
pela haste apenas da flor
e o faz subir até o ponto
existente entre as duas sobrancelhas
onde o ar aspirado se dissolve.

XL

Lá, no meio da fronte
na raiz do nariz,
está o Centro da Vida,
morada da imortalidade (amrita-sthana).
O yogin deve conhecer
este lugar de majestade
onde mora Brahman.

XLI

Posturas, retenção da respiração,
retração dos sentidos, atenção concentrada,
meditação, êxtase final,
tais são as seis etapas do Yoga.


Esse post é em homenagem a uma sucessão de eventos que reúnem um misto de conquistas, dificuldades, tropeços, reconquistas, reencontros e novas possibilidades. A escolha dos trechos da Upanishad, que faz parte da tradição védica de uma das vertentes da filosofia yogue, não é à toa. O Yoga me acompanha, em indas e vindas, desde a minha adolescência, quando tive o meu primeiro contato com as práticas, num ambiente que alguns podem achar inusitado: dentro de um colégio marista, de tradição católica. As aulas eram dadas por um dos irmãos da congregação, o qual, soube muito tempo depois, a deixou para seguir a vida a dois. O que mais me fascina, dentro dessa proposta do pensamento humano, guardadas as devidas proporções, que aconselham o cuidado com certas literalidades, dado não só o caráter altamente simbólico das escrituras, mas também o largo lapso de tempo que nos separam do contexto em que foram redigidas, é a crença firme de que podemos superar padrões de pensamento, condutas e disfunções do corpo e da mente, através da prática. Por isso, a impossibilidade de assemelhar-se a meros exercícios físicos, pois cada postura trabalha não apenas a parte corporal externa, mas também a interna, seja a fisiológica como a psíquica.

Para falar da tradição yogue, em rápidas linhas, cabe lembrar a existência de diferentes escolas, com propostas singulares, onde algumas dispensam as posturas físicas, como o Raja Yoga, que dá ênfase à meditação, a qual, entretanto, bom dizer, dificilmente pode ser suportada pelo corpo, por um longo período de imobilidade, sem que se esteja preparado para tanto. Mas se fosse possível tirar um fio que pudesse permear em generalidade a essência do yoga, eu escolheria aquele que traz escrito em si a lição de que o corpo deve ser trabalhado dentro de princípios básicos, que consistem em conjugar a estabilidade e a maleabilidade do corpo e, em especial, da coluna vertebral, que pode ser exercitada com flexões para frente e para trás e torções para a direita e esquerda; práticas de equilíbrio e inversões em relação à gravidade, onde se procura localizar a parte superior do corpo abaixo da linha da cintura ou dos pés, essa última conhecida como postura invertida sobre a cabeça. O objetivo, assim, é conjugar, sempre, estabilidade, flexibilidade e força interna, durante a permanência dentro das posições, propiciando ao corpo uma maior leveza de movimentos, que exala uma vivacidade de energias em equilíbrio, o que é possibilitado, ainda, pela associação de práticas respiratórias (pranayamas) às posturas físicas (ásanas).

Dentre tantos ensimamentos que a prática nos proporciona, a observação de si mesmo talvez esteja dentre as que mais benefícios trazem. E, pessoalmente, confesso que muitas me conduziram a diversas experiências de estado modificado de consciência, desde a mais simples sensação de conexão com uma sabedoria que se encontra para além da razão e que se dá a conhecer pela segurança profunda com que nos arrebata, até a emoção inusitada de intensa felicidade de quem retorna ao lar, após uma longa jornada. E é por isso que nunca deixo de render as minhas homenagens a essa tradição do pensamento oriental, pois mesmo que eu fique um bom período afastada, dentre indas e vindas, cada reencontro deixa a sua marca indelével mas certeira das inúmeras possibilidades que se abrem, a nos auxiliar no caminho.

Hari Om!

:))

Excertos a partir de "As Upanishas doYoga - Texto sagrados da Antiguidade", Carlos Alberto Tinoco.

segunda-feira, outubro 27, 2008

Ciência & Metafísica

Sempre que se trilha um caminho rumo aos rigores da ciência, parece que há um contra-ponto quase que inevitável: tudo o que não é científico deve ser relegado ao plano da metafísica, o que, em geral, é visto pelo rigor acadêmico como pura crença pessoal desprovida de qualquer fundamento plausível racional.

Mas como adoro exceções, venho compartilhar o que escutei de um homem das ciências exatas, engenheiro formado pelo ITA, profissional atuante e professor, que mesmo aposentado ainda ajuda na correção de teses de alunos, e que mesmo antes de eu nascer andava às voltas com a prima da minha mãe, com quem se casou e constituiu família: aqueles seis irmãos, dentre os quais o mais velho era o seu avô e o mais novo meu sogro, que foi pintor, gravurista e seminarista na juventude, desenvolveram uma consciência espiritual que poucos alcançam nesta vida. Relatou acontecimentos como a filha que ardia em 39 graus de febre, mas que após ter sido visitada pelo avô e dele ter recebido imposição de mãos, teve a temperatura rapidamente reestabelecida em 36,5 graus.

O meu avô, lembro-me bem, era regularmente visitado por pessoas em busca de coisas perdidas... certavez foi visitado por policiais, que quiseram saber como é que ele tinha achado a localização de um carro roubado. "Responso", que era como ele chamava as consultas que fazia com o pêndulo, foi a resposta aos incrédulos policiais.

A caridade, disse-me o homem das ciências exatas, é um dos caminhos mais certeiros para se chegar à espiritualidade superior e aqueles seis irmãos a tinham em abudância, eram capazes de tirar a roupa do corpo para ajudar a quem precisasse.

Esse pequeno relato foi extraído de uma conversa proporcionada por uma comemoração de Bodas de Ouro, aqueles cinquenta anos de convivência conjugal que hoje se encontra em vias de extinção, em tempos onde companheirismo, amizade e carinho parecem algo que a cada dia anda menos em sintonia com o que se costuma chamar de atração entre sexos opostos.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Assédio Moral

Assédio Moral: em 2008, 369 trabalhadores já foram à Superintendência Regional do Trabalho, em Curitiba, alegando terem sido vítimas dessa prática.

"De acordo com o professor Raphael Di Lascio, da Universidade Tuiuti, os casos mais comuns de assédio moral são: ser alvo de fofoca ou intriga, deixar de receber informações pertinentes ao trabalho, ser isolado do grupo, receber metas impossíveis e ter a competência questionada.
O desembargador federal do trabalho Dirceu Buyz Pinto Júnior esclarece que o assédio moral geralmente acontece por duas diferentes razões: para conseguir um aumento de produtividade ou para forçar a demissão".

Excertos de matéria publicada no jornal Gazeda do Povo, de 24.10.2008.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Difamação Virtual, Indenização Real.

"O Superior Tribunal de Justiça manteve a indenização contra homem que difamou ex-namorada por e-mail".

"Um homem que divulgou mensagens eletrônicas difamando uma ex-namorada, referindo-se a ela como “garota de programa”, não terá o recurso especial julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com isso, fica mantido o acórdão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), que o condenou a pagar uma indenização por danos morais no valor R$ 30 mil, mais juros. A decisão é do juiz convocado Carlos Fernando Mathias.

A mulher alegou que recebeu diversas ligações telefônicas com o objetivo de contratá-la para a prática de programas sexuais. Ela declarou que o fato ocorreu em virtude da publicação de e-mails divulgando seu nome, profissão, telefone e faculdade, junto com a fotografia de uma mulher em posições eróticas. Diante da situação, passou a ser incomodada pelos telefonemas e boatos que a taxavam de “garota de programa”. Ela, inclusive, teve de se retirar do clube ao qual era associada.

Em uma ação cautelar de exibição de documentos movida contra o provedor da mensagem, a mulher obteve a informação de que o correio eletrônico pelo qual foram enviados os e-mails pertencia ao ex-namorado dela e que a assinatura do provimento da internet pertencia ao irmão deste. A partir daí, requereu a condenação de ambos ao pagamento de indenização pelos danos morais sofridos.

Em primeira instância, a sentença condenou os irmãos ao pagamento de indenização no valor de R$ 17 mil. Na apelação proposta perante o TJRS, a ação referente ao ex-cunhado foi extinta por ilegitimidade passiva, sob o entendimento de que ele foi apenas o contratante do serviço utilizado e não o remetente. E manteve o julgamento com relação ao autor do e-mail e elevou o valor dos danos morais para R$ 30 mil. A defesa pretendia levar a discussão ao STJ por meio de um recurso especial, pretensão indeferida pelo tribunal gaúcho.

Mas o agravo de instrumento foi rejeitado pelo relator, juiz convocado Carlos Mathias. Para ele, não foram atendidas exigências processuais para este fim. Além disso, para apreciar a questão seria necessário analisar o conjunto de provas e fatos, o que é proibido ao STJ fazer em razão da sua Súmula 7".


A notícia refere-se ao julgamento do Ag 848362/RS.

http://www.stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=89658

terça-feira, outubro 21, 2008

Claras, Franciscas e Marias



A Paraíba e a sua capital João Pessoa surpreendem. E para melhor, o que faz toda a diferença, bom que se frise. Foi por lá, na capital, que me deparei com o Mosteiro de São Francisco, um lugar que vibra em certa aura que nos remete para algum lugar mais além, talvez para o passado que construiu aquele presente. Ao percorrer os corredores dos andares superiores, que abrigavam os claustros da ordem dos religiosos, hoje ligeiramente modificados e ampliados, pode-se vislumbrar que não obstante o rigor do fechar-se para o mundo, os arredores são indicadores de uma escolha privilegiada, onde a natureza abundante até hoje impressiona. O aroma que rescende, quando o vento adentra por algumas janelas, dá a conhecer que jasmins habitam o jardim que se deixa entrever pelos vãos inundados de sol, se não sempre, intensamente em dias de inverno típico, deveras ameno pelas redondezas das zonas tropicais equatorianas.

Há um confronto entre a ideologia do claustro, que se fecha para o mundo externo em busca da divindade por vias de interiorização, e a beleza que adentra do mundo afora, que espreita por todos os espaços: janelas, portas e arcadas que circurdam o pátio central, local onde eram praticadas orações, cânticos e meditações.

A Ordem dos Franciscanos teve o seu contra-ponto feminino através de Santa Clara, que fundou a Ordem das Irmãs Clarissas. Conta a lenda católica que dos olhos de São Francisco, ao cortar os cabelos da jovem Clara de Assis, escorreram lágrimas, tamanha era a beleza daquela que se tornaria conhecida na posteridade como Santa Clara.

Para alguns, entretanto, o movimento ascético, que encontrava ressonância no discurso dominante católico, era embuído, em alguns casos, de um sentido oculto, que encobria a rebeldia das jovens da época a certas regras vigentes, o casamento arranjado, por exemplo.
Dentre as inúmeras santas católicas que se destacaram por suas intensas penitências, encontram-se as Santas Wilgefortis, Catarina de Siena e Maria Madalena de Pazzi.

Leituras atuais de comportamentos idos podem sugerir que muitas práticas de jejum extenuante, valorizadas e enaltecidas por uma certa ótica, como a vigente na Idade Média, podem corresponder ao que se entende, atualmente, por quadros de anorexia crônica. A "Santa Inquisição", como hoje se sabe deveras pecadora de outrora, não deixou de notar o fato e se não deu às suas observações a interpretação conferida por Freud, buscou a que lhe era habitual: enquadrar o indomável, o desconhecido e o saber contrário aos ideais professados pela ordem vigente ou como manifestação divina ou como de natureza demoníaca, o que abria um leque para a toda a sorte de maneiras de eliminar o que estava a incomodar a ordem estabelecida, onde a rejeição tanto da beleza como do enaltecimento do ego estavam dentre os ideais que se encontravam no topo da escala de valores, compondo o caleidoscópio que dava a visão de mundo de então.

Arriscaria a propor, o que é endossado nos textos referidos ao final, que menos se altera a estrutura central de certos comportamentos humanos e muito se modificam as formas de se interpretar e entender esse mesmo que se repete. Parece-me que há inevitáveis aproximações de descrições de tais efeitos, quanto à vivacidade que se instala a partir de um estágio já avançado da anorexia nervosa, com o estado de êxtase que seguidores da ideologia "Vivendo de Luz" descrevem em seus relatos. A diferença é que a proponente da prática não encara uma dieta de pouquíssima ingestão não só de alimentos como de líquidos como algo patológico ou de caráter punitivo, mas caminho de iluminação: "Quando fui orientada pela primeira vez a contar minha viagem pessoal de libertação da necessidade de consumir alimentos graças ao poder Divino, não tinha idéia de que o livro se tornaria tão popular e seria publicado em tantas línguas" (Prefácio por Jasmuheen, autora de "Os embaixadores da Luz").

Cumpre-me dizer, por fim, que tais reflexões e aproximações não têm a pretensão de macular a santidade conferida a tantas mulheres que se dedicaram de corpo e alma ao ofício divino aqui na terra, principalmente porque, até hoje, desconheço alguma explicação científica para justificar fatos como, por exemplo, a incorrupção de corpos, como no caso de Santa Maria Madalena de Pazzi. E frente ao desconhecido, o mínimo que se requer é prudência e respeito. Se alguém souber dar razão ao milagre, cartas à redatora.

Veja mais em:
www.gatda.psc.br/anorexia.htm - 79k -
www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-44462002000300011&script=sci_arttext - 23k
www.redeceppan.com.br/artigos/08.07.15/08.07.15.htm - 30k -
es.wikipedia.org/wiki/Wilgefortis - 39k -



"Em 1212, a jovem Clara de Assis seguiu o atraente exemplo de Francisco e viveu, dentro da clausura e na contemplação, o ideal de pobreza evangélica. Surgiu, assim, a Ordem das Clarissas, ou a Segunda Ordem Franciscana.
Santa Clara nasceu em Assis, Itália, por volta de 1194, numa família rica e nobre. Seus pais chamavam-se Favarone e Hortolana, sendo Clara a filha primogênita. Com Inês e Beatriz, suas irmãs menores, que mais tarde também entrariam no Mosteiro de São Damião, Clara esforçava-se no amor a Jesus e sentia em seu coração o chamado para segui-lo.

Clara sonhava com uma vida mais cheia de sentido, que lhe trouxesse uma verdadeira felicidade e realização. O estilo de vida dos frades a atraía cada vez mais.
Depois de muitas conversas com Francisco, aos 18 de março de 1212, (Domingo de Ramos), saiu de casa sorrateiramente em plena noite, acompanhada apenas de sua prima Pacífica e de outra fiel amiga, e foi procurar Francisco na Igrejinha de Santa Maria dos Anjos, onde ele e seus companheiros já a aguardavam.
Frente ao altar, Francisco cortou-lhe os longos e dourados cabelos, cobrindo-lhe a cabeça com um véu, sinal de que a donzela Clara fizera a sua consagração como Esposa de Cristo. Nem a ira dos seus parentes, nem as lágrimas de seus pais conseguiram fazê-la retroceder em seu propósito. Poucos dias depois, sua irmã, Inês, veio lhe fazer companhia, imbuída do mesmo ideal. Alguns anos após, sua mãe, Ortulana, juntamente com sua terceira filha Beatriz, seguiu Clara, indo morar com ela no conventinho de São Damião, que foi a primeira moradia das seguidoras de São Francisco.
Com o correr dos anos, rainhas e princesas, juntamente com humildes camponesas, ingressaram naquele convento para viver, à luz do Evangelho, a fascinante aventura das Damas Pobres, seguidoras de São Francisco, muitas das quais se tornaram grandes exemplos de santidade para toda a Igreja.
As Irmãs Clarissas vivem um estilo de vida contemplativa, sendo enclausuradas. Quer dizer que não têm, normalmente, uma atividade pública no meio do povo, dedicando-se mais à oração, à meditação e aos trabalhos internos dos mosteiros".

www.franciscanos.org.br/nossaorigem/especiais/santa_clara2003/notas/santaclara.htm

O "Conjunto São Francisco", em João Pessoa, é um dos mais relevantes complexos de arquitetura e arte barroca no país. Concluída em 1770, a Igreja de São Francisco abriga, também, o Claustro da Igreja de São Francisco".

sábado, outubro 18, 2008

Roji




Nunca te esqueças
que o caminho do chá
não é nada mais que isto:
aquecer a água,
preparar o chá e bebê-lo.

Cha-no-yu to wa
Tada yu wo wakashi
Cha wo tatete
Nomu bakari nari
Moto wo shirubeshi


Segundo a antiga mitologia chinesa, em um lugar afastado, ao leste da costa chinesa, existem cinco ilhas onde os homens alcançaram a imortalidade e convivem em eterna harmonia. Ali reina a harmonia entre o homem e a mulher e também entre o ser humano e a natureza. Os imortais voam ao redor dos picos das montanhas, montados em grous. As ilhas se assentam sobre a carapaça de uma gigantesca tartaruga aquática que, ao lutar com um monstro marinho, perdeu duas das cinco ilhas. Essa história é conhecida como "O mito da ilha dos bem-aventurados", a qual cativou o Japão, que a adotou, mas reduziu as cinco ilhas a uma apenas, chamada P'eng-Iai ou Horaij-zan, em japonês. Um monte Horai, uma ilha Horai ou bem uma pedra Horai... as vezes aparece uma ilha de quatro grous ou das tartarugas como símbolo da Ilha dos bem-aventurados na jardinagem japonesa. Os grous e as tartarugas, em certa medida 'pars pro toto', se converteram em símbolos autônomos da longevidade.

Chá: elixir dos imortais e bebida que fomenta a vida em comum. A cerimônia do chá, 'sado o chado' em japonês, é uma criação puramente japonesa, ainda que tantas coisa no Japão tenham sua origem na China. A prática de tomar chá era conhecida de longa data no sul da China como um ato social e parte de um ritual estético-religioso, o qual era apreciado pelos chineses desde a época da dinastia Han (206a.C-220d.C), sobre tudo pelo seu poder curativo não só para o corpo, como para a alma, sendo-lhe atribuído poderes mágicos. A partir do século VII foi introduzido nos monastérios budistas como parte de um ritual religioso e que era utilizado na meditação por seu efeito excitante. Na opinião de Theodore Ludwing, o mais importante foi a associação do chá com poderes mágicos e com os imortais, da mitologia taoísta, e uma sensibilidade para a auto-disciplina e simplicidade naturais que se associaram aos efeitos adstringentes do chá verde. Durante a era Muromachi foram desenvolvidos todos os tipos de ritos e festas em torno do chá que até então haviam sido esquecidos há tempos. Festas passaram a ser organizadas, onde não eram apenas degustados diferentes tipos de chás, mas também bebidas alcoólicas, enquanto os convidados podiam entreter-se em conversas e jogos de amores, havendo também casas de banhos presentes. Com o passar dos séculos, elaborou-se no Japão um detalhado ritual ascético para preparar-se a cerimônia do chá, tornando-se um costume dos ricos comerciantes do começo do século XVI construírem pequenas cabanas no jardim de suas casas para darem lugar à cerimônia, cujo acesso se dá pelo roji, o caminho que conduz ao so-an, cabana com telhado de palha, caminho esse que alude ao espaço que se encontra mais além da vida humana, consumida por paixões e ilusões.

Excertos a partir de "El Jardin
Japonés', capítulos "Mitologia Taoísta e o "O Novo protótipo do jardim da época Momoyama: roji, o rústico jardim do chá", de Günter Nitschke, Taschen.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Alethéia e Ser-aí




"Pois falar da linguagem talvez seja ainda pior do que escrever sobre o silêncio". Martin Heidegger

"A linguagem está aí. É um emergente. Agora que emergiu, jamais saberemos quando, nem como começou, nem como era antes que fosse". Jacques Lacan

"O acolhimento singelo do sujeito interpretante como ideal (logo, capaz de ser acoplado por qualquer intérprete) esbarra no velamento da questão do ser-aí. Desvelando-se o sentido e a verdade do ser-aí, a pretensão da hermenêutica informada pela Filosofia da Consciência de chegar ao significado primevo dos entes somente pode ser feita singularmente e não mais de maneira universal. Sendo assim, a verdade é a verdade relativa do ser-aí. Diante dessa constatação, existe uma batalha contra a inautenticidade (a autenticidade mal-compreendida) e também em se rever a questão da hermenêutica jurídica; especialmente na abjuração das formas clássicas, legados da Filosofia da Consciência, porém ainda prevalente no senso comum teórico dos juristas".

A partir de um link entre Carnelutti e Heidegger, é possível "demonstrar que da compreensão do ser-aí não se pode fugir, por se estar envolvido desde sempre na existência (ontológica) do indivíduo. E essa existência se dá pelas (in)compreensões do mundo e do lugar ocupado (no mundo) e também pelas (in)compreensões que se tem delas próprias, deslizando de forma infinita no significante (LACAN). O referido movimento de ontologia fundamental demonstra que a interpretação do ser-aí é feita pelo ser-aí para o ser-aí, constituindo a existência de seu próprio alicerce. Sem se dar conta disso, incorre-se nos equívocos da Metafísica. Por outro lado, 'a questão do ser-aí envolve o reconhecimento da historicidade do próprio homem, por seu lugar na história que, todavia, o transpassa".

Excertos a partir da apresentação feita por Sylvio Lourenço da Silveira Filho, em discussão acadêmica do texto base denominado "Decisão Penal: a bricolage de significantes - capítulo 5: limites à epistemologia garantista", por Alexandre Morais da Rosa (http://lattes.cnpq.br/4049394828751754), parte do programa de pós-graduação em direito da Universidade Federal do Paraná - UFPR, disciplina 'crítica do direito processual penal'.

Alethéia diz respeito ao modelo binário heideggeriano de análise, que se dá através do jogo velamento-desvelamento dos significantes do ser-aí, que volta e meia pode ser observado flainando por aqui e acolá, de acordo com a rosa dos ventos...